
A Kraken está sendo transformada em uma peça de uma estratégia maior. Sua controladora, a Payward, vem investindo bilhões de dólares em aquisições, novos produtos e infraestrutura para deixar de atuar apenas como uma corretora de criptomoedas.
A meta é construir uma plataforma financeira capaz de conectar negociação, pagamentos, serviços bancários, gestão de ativos e infraestrutura para outras empresas sob uma mesma estrutura tecnológica e regulatória.
A estratégia ganhou escala nos últimos dois anos, com movimentos em derivativos, ações tokenizadas e serviços bancários nos Estados Unidos e na Europa.
Segundo Arjun Sethi, co-CEO da Payward, a empresa pretende operar com uma infraestrutura integrada, baseada no conceito de um único livro contábil, ou “one ledger”. A proposta é permitir que dinheiro e ativos circulem entre diferentes produtos sem depender de tantas estruturas separadas.
A Payward divide esse projeto em quatro áreas principais: trading por meio da Kraken, serviços bancários, gestão de ativos e Payward Services, divisão voltada à infraestrutura para outras empresas.
A Kraken tem cerca de 6,6 milhões de contas financiadas, com entre US$ 40 bilhões e US$ 50 bilhões em ativos, segundo Sethi. A operação alcança mais de 190 países e territórios.
Kraken amplia a infraestrutura para além da corretora
A expansão também passa por aquisições. A Payward pagou US$ 1,5 bilhão pela NinjaTrader, operação que adicionou tecnologia e estrutura regulatória para corretagem de futuros nos Estados Unidos.
Depois, desembolsou US$ 550 milhões pela Bitnomial, incorporando infraestrutura regulada para derivativos, incluindo uma bolsa, uma clearing e uma corretora de futuros.
Sethi também afirmou que a empresa está prestes a comprar um banco na Europa. Em julho, a Bloomberg informou que a Payward avaliava a aquisição de um banco na Lituânia para ampliar sua presença no continente.
Nem toda expansão, porém, será feita por aquisições. A Payward também fechou acordos com instituições tradicionais, incluindo a Nasdaq, que concordou em investir US$ 100 milhões na companhia e ampliar sua colaboração em tokens de ações e tecnologia de monitoramento de mercado.
As empresas esperam lançar os chamados Equity Tokens da Nasdaq no segundo trimestre de 2027, com a Payward fornecendo distribuição, negociação e infraestrutura pós-negociação.
A London Stock Exchange também firmou uma parceria com a Payward para explorar ações públicas tokenizadas. Com aprovação regulatória, a bolsa pretende listar as xStocks, representações tokenizadas de ações negociadas publicamente, em sua futura plataforma LSE 24 em 2027.
Para a Payward, esses acordos mostram que a expansão da tecnologia blockchain não necessariamente elimina as instituições financeiras tradicionais. Em alguns casos, a estratégia é incorporar suas estruturas existentes à nova infraestrutura.
Outro braço da estratégia é o Payward Services. A divisão oferece APIs para bancos, fintechs, corretoras e plataformas de criptomoedas, permitindo acesso a serviços como custódia, liquidez, compliance, gestão de risco, pagamentos e liquidação.
Pelo menos 25 empresas estão construindo produtos usando essa infraestrutura e devem lançá-los neste ano, segundo Sethi. A Hyperliquid está entre os parceiros citados.
O modelo também muda a relação da Payward com seus usuários. Em vez de depender exclusivamente da chegada de clientes diretamente à Kraken, a empresa pode fornecer sua infraestrutura para produtos que operam sob outras marcas.
A Payward também está ampliando sua atuação em gestão de ativos. A companhia pretende oferecer uma plataforma para estratégias e produtos de investimento, começando por ações tokenizadas e avançando para produtos estruturados e diferentes classes de ativos.
Recentemente, a empresa fechou uma parceria com a Bitwise para um produto de investimento institucional e pretende adicionar novos gestores e estratégias.
Payward prepara expansão antes de um possível IPO
A expansão acontece enquanto a Payward se prepara para uma eventual abertura de capital. A companhia apresentou confidencialmente um pedido de IPO em novembro de 2025, mas não pretende realizar a operação antes do segundo trimestre de 2027, segundo informações publicadas pela CoinDesk neste mês.
A empresa afirma que continua lucrativa e que sua receita segue crescendo. No segundo trimestre de 2026, a Payward registrou US$ 508 milhões em receita ajustada, alta de 17% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A companhia também diz não depender de recursos externos para financiar suas operações e afirma que pode bancar investimentos com o próprio balanço.
Nesse modelo, a Kraken continua sendo a principal marca voltada ao consumidor, mas a ambição da Payward é maior: transformar a infraestrutura criada para uma corretora em uma base que também possa sustentar bancos, fintechs, gestores e outras empresas financeiras.








