A discussão sobre a privacidade no bitcoin ganhou novos contornos após pesquisas revelarem que o rastreamento financeiro pode começar muito antes do envio de qualquer transação. Para empresas e usuários comuns, o uso de endereços públicos expõe históricos completos de pagamentos, saldos e parceiros comerciais no livro de registros da rede.

Em julho de 2026, pesquisadores do grupo DistriNet, da universidade KU Leuven, testaram 85 das extensões de carteira mais populares para navegadores, somando cerca de 35 milhões de instalações na Chrome Web Store. O resultado apontou que 36 dessas carteiras — representando 82% das instalações analisadas, vazam dados suficientes para identificar e rastrear usuários antes mesmo da assinatura de uma transferência.

A falha ocorre porque a carteira consulta servidores externos para exibir o saldo na tela, enviando o endereço em texto claro. Além disso, 17 softwares (23 milhões de instalações) expõem conexões entre diferentes endereços do mesmo titular, e 22 mantêm a leitura do endereço ativa mesmo após o usuário revogar o acesso e reiniciar o navegador.

O estudo também revelou que 23 carteiras vazam dados por meio de conteúdos carregados por outros sites sem exigência de clique. Entre as empresas notificadas, Coinbase Wallet, Coin98 e Hana aplicaram correções, enquanto MetaMask, Rabby e OKX não realizaram alterações. Em testes com 30 aplicativos descentralizados (dApps), apenas 11 desconectaram o acesso corretamente.

Como as empresas de análise afetam a privacidade no bitcoin

A exposição inicial do endereço é combinada ao monitoramento contínuo de empresas de análise de blockchain. Com base em padrões de movimentação, softwares analíticos agrupam endereços pertencentes a uma mesma entidade. Até meados de 2026, a empresa Chainalysis declarou ter agrupado mais de 1 bilhão de endereços em mais de 134 mil entidades identificadas.

A vinculação com a identidade real costuma ocorrer quando os fundos chegam a corretoras centralizadas com processos de verificação KYC. Contudo, o rastreamento público já viabilizou ações judiciais importantes, como a recuperação de US$ 2,3 milhões dos US$ 4,4 milhões do resgate do Colonial Pipeline em 2021. Até mesmo o misturador Helix, que movimentou 354.468 BTC entre 2014 e 2017, deixou o rastro da comissão de 2,5% do seu fundador gravado na rede.

Apesar da eficiência declarada, os sistemas de análise dependem de probabilidades e cometem erros. Compradores no mercado P2P já sofreram congelamento de contas por receberem moedas que passaram por misturadores em transações antigas. Além disso, no início de 2025, a Chainalysis reduziu em mais de US$ 300 milhões sua estimativa de criptomoedas roubadas pela Coreia do Norte no ano anterior, ajustando o valor de US$ 1 bilhão para US$ 660,5 milhões.

Essas inconsistências geraram questionamentos judiciais em processos de softwares como Bitcoin Fog e Tornado Cash, desafiando a precisão do rastreamento promovido por fornecedores governamentais de análise. Na prática, a preservação da privacidade no bitcoin depende da atenção do usuário às pontes de conexão direta entre remetente e destinatário, onde soluções como o recurso Private Transfers da ChangeNOW usam endereços intermediários únicos para evitar o vínculo direto na rede.

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Luíza Nunes
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