A blockchain entrou nos games pela recompensa. Pode permanecer pela propriedade

A blockchain entrou nos games pela recompensa. Pode permanecer pela propriedade

Em fevereiro de 2026, a Ubisoft lançou globalmente Might & Magic Fates, um jogo gratuito de cartas desenvolvido em parceria com a Immutable.

O título permite que jogadores colecionem cartas e, nas regiões autorizadas, negociem determinados ativos por meio de um marketplace externo. Embora exista uma infraestrutura blockchain nos bastidores, ela não ocupa o centro da experiência apresentada ao público.

O jogo é promovido como uma disputa estratégica na qual o resultado deve depender da habilidade, não do poder financeiro. A própria Ubisoft diferencia cartas convencionais de cartas registradas como NFTs, mas não apresenta o título como uma oportunidade de investimento. Os termos da empresa dizem expressamente que os colecionáveis digitais são destinados ao uso e ao entretenimento, e não à especulação.

Essa escolha marca uma mudança importante. A blockchain ganhou escala nos games prometendo recompensar financeiramente os jogadores.

Agora, tenta preservar seu espaço oferecendo algo menos chamativo, mas potencialmente mais sustentável: a possibilidade de possuir e transferir determinados ativos digitais sem depender exclusivamente do banco de dados interno de uma plataforma.

O “play-to-earn” transformou o incentivo no próprio produto

A primeira grande onda de jogos em blockchain foi construída ao redor de uma proposta simples: jogar também poderia ser uma forma de ganhar dinheiro. Tokens e NFTs deixaram de ser elementos complementares e se tornaram a principal razão para entrar e permanecer em muitos desses projetos.

O problema estava na natureza do incentivo. Quando a entrada de novos participantes e a valorização dos tokens sustentavam as recompensas, a atividade podia crescer rapidamente.

Quando os preços caíam ou a emissão deixava de compensar o tempo dedicado ao jogo, parte dos usuários perdia o motivo econômico para continuar. Em vez de fortalecer a experiência, a camada financeira frequentemente substituía a necessidade de construir um produto capaz de reter jogadores por seus próprios méritos.

Os números posteriores mostram o tamanho do ajuste.

Segundo a DappRadar, a atividade dos jogos em blockchain caiu 17% no segundo trimestre de 2025, para uma média de 4,8 milhões de carteiras ativas diariamente. Carteiras não equivalem necessariamente a pessoas, mas ajudam a medir a interação com aplicações on-chain. Mais de 300 aplicativos de games ficaram inativos no mesmo período.

O recuo foi ainda mais intenso no financiamento. Os investimentos no setor somaram US$ 73 milhões no trimestre, uma queda de 93% em relação ao ano anterior e o menor volume em dois anos. A redução não significa que os jogos em blockchain desapareceram.

Ela mostra que o capital deixou de aceitar com a mesma facilidade projetos cuja economia dependia principalmente da emissão e da valorização de tokens.

A Ubisoft deslocou a blockchain para os bastidores

Might & Magic Fates representa uma tentativa diferente. A Ubisoft partiu de uma franquia conhecida, construiu um jogo de estratégia com centenas de cartas e adicionou a negociação de determinados ativos como uma funcionalidade específica. Nas regiões elegíveis, essas transações são realizadas em um marketplace externo apoiado pela tecnologia da Immutable.

A diferença está no que o jogador encontra primeiro.

A proposta pública enfatiza partidas, construção de baralhos, facções e progressão. A blockchain aparece quando o usuário decide transformar uma carta compatível em um ativo negociável. Ela deixa de ser a identidade do jogo e passa a funcionar como parte de sua infraestrutura econômica.

A própria arquitetura da Immutable segue essa direção. A empresa oferece login com e-mail ou conta social, criação automática de carteira, gerenciamento de chaves e transações sem cobrança direta de taxas aos jogadores. A intenção é permitir que alguém interaja com ativos on-chain sem precisar compreender carteiras, taxas de rede ou assinaturas de transações antes de começar a jogar.

Essa tentativa de tornar a tecnologia invisível é mais relevante do que parece. Durante a primeira fase dos jogos em blockchain, o usuário precisava se comportar como investidor antes de se comportar como jogador. Era necessário adquirir tokens, configurar carteiras e lidar com redes desconhecidas.

A nova abordagem inverte essa ordem: primeiro vem o jogo; a propriedade digital aparece apenas quando oferece alguma utilidade concreta.

Possuir o NFT não significa possuir toda a carta

A promessa de propriedade, porém, precisa ser definida com cuidado.

Nos modelos tradicionais, a compra de um jogo ou item virtual normalmente concede uma licença de utilização dentro de condições estabelecidas pela plataforma. O acordo do Steam, por exemplo, declara que seus conteúdos e serviços são licenciados, não vendidos, e que essa licença não transfere ao usuário qualquer título de propriedade sobre eles.

A blockchain altera uma parte dessa relação ao permitir que um ativo seja registrado em uma carteira controlada pelo usuário. Nos termos Web3 da Ubisoft, quem adquire um colecionável digital passa a ser proprietário do NFT correspondente.

A empresa afirma que não pode modificar esse registro de propriedade porque ele é verificado por um contrato inteligente em uma rede independente.

Isso não significa que o jogador adquira os direitos autorais ou a propriedade intelectual da imagem representada pela carta. A Ubisoft continua sendo proprietária da representação visual e concede ao titular do NFT uma licença limitada, revogável e destinada ao uso pessoal. O usuário não pode criar obras derivadas, comercializar produtos com aquela imagem ou explorar a propriedade intelectual livremente.

A distinção também é reconhecida pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual.

Possuir um objeto digital não significa automaticamente possuir a obra criativa incorporada nele. O token pode registrar quem controla o ativo, enquanto os direitos sobre personagens, imagens e marcas continuam pertencendo aos seus respectivos titulares.

Portanto, a blockchain não transforma o jogador em proprietário de uma franquia, de um personagem ou do conteúdo artístico completo. Ela oferece um direito mais estreito: controlar o token e, dentro das regras estabelecidas, transferi-lo para outra pessoa.

A propriedade sobrevive, mas a utilidade ainda depende do jogo

Os termos da Ubisoft ajudam a revelar tanto o avanço quanto a limitação desse modelo. Se um serviço Web3 ou um jogo for encerrado, o usuário continuará sendo proprietário do NFT armazenado na blockchain e poderá transferi-lo por marketplaces compatíveis.

No entanto, o ativo poderá deixar de funcionar dentro do jogo que lhe dava utilidade.

Essa diferença é central. A blockchain pode preservar a existência e a transferibilidade do token, mas não obriga uma empresa a manter servidores, sustentar uma comunidade ou integrar o objeto a outro título.

Um jogador pode levar o ativo para outra carteira, mas não pode obrigar outro jogo a reconhecer aquela carta, reproduzir sua aparência ou aceitar suas características.

A interoperabilidade, portanto, não é apenas um problema técnico. Ela depende de acordos comerciais, licenças de propriedade intelectual, decisões de design e compatibilidade entre sistemas. Uma arma criada para um jogo de tiro não entra automaticamente em um RPG apenas porque ambos utilizam a mesma blockchain.

O ganho real está em reduzir a dependência absoluta da plataforma original. No modelo convencional, o item pode desaparecer junto com a conta, o servidor ou a decisão unilateral da empresa. No modelo on-chain, o registro permanece sob controle do usuário, embora seu valor e sua utilidade continuem ligados ao ecossistema que o reconhece.

A blockchain pode sobreviver justamente ao deixar de ser o produto

Might & Magic Fates não prova que a propriedade digital descentralizada se tornará o padrão da indústria. Também não elimina os riscos associados a carteiras, contratos inteligentes, marketplaces externos e ativos cuja demanda pode desaparecer. A própria Ubisoft alerta que não garante valor futuro, que transações podem ser irreversíveis e que limitações regulatórias variam entre países.

O jogo, porém, mostra uma direção mais realista para o setor.

Em vez de tentar remunerar permanentemente o jogador pela sua presença, a blockchain passa a oferecer uma infraestrutura para registrar, guardar e transferir ativos. A recompensa deixa de ser a razão principal para jogar e se torna uma consequência possível de possuir algo negociável.

Esse modelo também preserva incentivos para as empresas. Desenvolvedores podem controlar a utilidade dos itens dentro do jogo, participar das vendas iniciais e cobrar taxas em negociações posteriores.

Os jogadores, por sua vez, recebem uma forma de controle que não existe em sistemas inteiramente fechados. Nenhum dos lados obtém autonomia completa, mas a relação deixa de depender exclusivamente de uma licença interna e intransferível.

A primeira fase dos jogos em blockchain tentou transformar tempo de jogo em renda. A próxima tenta responder a uma questão mais básica: o que realmente pertence ao jogador depois que ele investe dinheiro e centenas de horas em um universo digital?

A resposta ainda é limitada. Em Might & Magic Fates, possuir uma carta registrada em blockchain não significa possuir sua arte, seus direitos comerciais ou sua utilidade para sempre. Significa, porém, que o ativo pode continuar na carteira e ser transferido mesmo quando a plataforma original deixa de controlá-lo diretamente.

É uma promessa menos espetacular do que “jogar para ganhar”. Justamente por isso, talvez seja uma base mais sólida para a blockchain permanecer nos games.