Stablecoins começaram como dinheiro digital. Agora estão virando infraestrutura financeira

Stablecoins começaram como dinheiro digital. Agora estão virando infraestrutura financeira

Stablecoins nasceram com uma proposta relativamente simples: colocar moedas tradicionais dentro de blockchains.

Um dólar poderia circular como um token, ser transferido continuamente e chegar a outra carteira sem depender exclusivamente dos horários e dos trilhos tradicionais do sistema bancário.

Agora uma segunda camada começa a crescer sobre ela.

Empresas estão utilizando stablecoins não apenas como dinheiro digital, mas como infraestrutura para pagamentos internacionais, conversão entre moedas, liquidação e outros serviços financeiros.

A Fasset oferece um exemplo recente dessa transformação.

A plataforma levantou nesta segunda-feira US$ 68 milhões em uma Series C liderada pelo SBI Group e alcançou valuation de US$ 1 bilhão. Apenas três meses antes, havia captado outros US$ 51 milhões, elevando para US$ 119 milhões o capital levantado em 2026.

O que está sendo financiado não é simplesmente outra maneira de comprar ou armazenar stablecoins.

A Fasset conecta bancos, empresas de pagamentos, operadoras de telecomunicações e provedores de liquidez em mais de 100 corredores internacionais. A companhia pretende utilizar o novo capital para ampliar uma infraestrutura que inclui liquidação com stablecoins, banking corridors e ativos tokenizados.

A diferença é importante. Stablecoins começaram como um produto financeiro, agora estão começando a funcionar como a camada sobre a qual outros produtos financeiros são construídos.

Movimentar o token era apenas a primeira parte

Criar um dólar capaz de circular em uma blockchain resolve um problema específico, não resolve tudo que precisa acontecer antes e depois da transação.

Uma empresa que recebe stablecoins pode precisar pagar fornecedores em moeda local. Um trabalhador pode receber dólares digitais e querer gastá-los em estabelecimentos conectados ao sistema bancário. Companhias que movimentam recursos internacionalmente continuam sujeitas a identificação, compliance e regras cambiais.

A stablecoin pode transportar o valor, ainda é necessária uma infraestrutura para conectá-lo ao restante da economia.

É justamente nesse espaço que empresas como a Fasset estão se posicionando.

Elas podem utilizar stablecoins para liquidar uma transferência entre países e conectar essa movimentação a bancos locais, provedores de liquidez, sistemas de pagamento e conversão cambial.

Isso muda o papel econômico desses ativos.

Uma stablecoin não precisa ser necessariamente aquilo com que o usuário interage, pode ser aquilo que a infraestrutura utiliza para concluir a operação.

Stablecoins não precisam substituir os bancos

A ideia de que stablecoins competiriam diretamente com bancos sempre simplificou demais o problema.

Bancos não existem apenas para transferir unidades monetárias, eles mantêm relações com clientes, executam compliance, oferecem acesso a moedas locais e conectam empresas e consumidores a diferentes partes do sistema financeiro.

Digitalizar dólares não elimina automaticamente essas funções, o que stablecoins podem mudar é a infraestrutura que existe entre elas.

Pagamentos internacionais deixam isso particularmente claro.

Uma transferência tradicional entre países pode atravessar bancos correspondentes, contas pré-financiadas, sistemas de mensagens e processos de conversão cambial antes de chegar ao destinatário.

Stablecoins permitem que parte da liquidação aconteça sobre uma infraestrutura compartilhada e continuamente disponível.

O dinheiro ainda precisa entrar e sair desse sistema, mas o caminho entre as duas pontas pode mudar.

O Financial Stability Board observa que os casos mais plausíveis de uso de stablecoins em pagamentos internacionais podem justamente seguir esse modelo híbrido: tokens integrados a dinheiro bancário, câmbio e sistemas tradicionais de liquidação, em vez de uma infraestrutura paralela completamente separada.

Isso sugere uma transformação menos radical na aparência, mas potencialmente mais profunda na arquitetura.

O banco pode continuar atendendo o cliente, a moeda local pode continuar sendo utilizada, o que muda é parte da infraestrutura utilizada para movimentar valor entre eles.

O sinal de adoção pode ser quando ninguém percebe a stablecoin

Essa mudança produz uma consequência interessante.

Durante a primeira fase do mercado, utilizar stablecoins era normalmente uma decisão explícita.

O usuário escolhia USDT ou USDC, selecionava uma blockchain, utilizava uma carteira e sabia que estava realizando uma transação on-chain.

Uma infraestrutura financeira baseada em stablecoins pode funcionar de maneira diferente.

Uma empresa pode pagar um fornecedor no exterior enquanto tokens são utilizados apenas na etapa de liquidação. Um aplicativo pode oferecer uma conta denominada em dólares enquanto administra blockchain e conversão por trás da interface. Instituições podem movimentar liquidez entre mercados sem que seus clientes precisem interagir diretamente com os ativos utilizados nesse processo.

Nesse cenário, a adoção deixa de depender de convencer milhões de pessoas a utilizar conscientemente uma stablecoin, ela passa a depender de convencer empresas financeiras de que stablecoins são uma maneira melhor de executar determinadas operações.

Isso muda também a maneira de medir o crescimento desse mercado.

O número de pessoas que possuem stablecoins continua relevante, mas passa a contar apenas uma parte da história. Também importa quantos pagamentos, transferências e processos de liquidação utilizam esses ativos sem que eles sejam necessariamente o produto oferecido ao cliente.

O mercado ainda está longe de substituir a infraestrutura global de pagamentos. O FSB ressalta que stablecoins representam uma parcela pequena dos fluxos internacionais e que muitos usos institucionais continuam em desenvolvimento.

A Fasset atingir US$ 1 bilhão de valuation não prova que essa transição esteja concluída, mas ajuda a mostrar onde empresas e investidores começam a enxergar a próxima oportunidade.

A primeira fase das stablecoins foi colocar dólares em blockchains, a próxima pode ser fazer com que esses dólares movimentem partes do sistema financeiro sem que quem está usando esse sistema precise sequer perceber que existe uma blockchain por baixo.