A MANTRA mostrou que tokenizar um ativo também significa herdar os riscos da blockchain

A MANTRA mostrou que tokenizar um ativo também significa herdar os riscos da blockchain

A promessa da tokenização é transportar ativos do sistema financeiro tradicional para uma infraestrutura mais eficiente.

Um título público pode continuar representando uma obrigação do governo. Um fundo pode continuar possuindo os mesmos ativos. Um imóvel pode continuar existindo no mesmo lugar. Mas suas representações digitais passam a circular em blockchains capazes de oferecer liquidação mais rápida, programabilidade e operação contínua.

Nesta semana, a MANTRA mostrou o outro lado dessa transformação.

A MANTRA Chain, uma blockchain Layer 1 desenvolvida especificamente para ativos do mundo real, interrompeu suas operações após detectar a exploração de uma vulnerabilidade em uma dependência externa utilizada pela rede. Transações foram congeladas enquanto a equipe investigava o incidente e preparava uma correção.

O token MANTRA chegou a cair 18,5% e atingiu uma mínima histórica próxima de US$ 0,0041 antes da interrupção da produção de blocos. A equipe ainda não estabeleceu uma relação causal entre o exploit e a queda do token.

O episódio permanece em investigação, mas uma consequência já está clara.

O problema não precisava estar no ativo tokenizado para afetar sua utilização. Bastava existir em uma das camadas tecnológicas necessárias para movimentar sua representação.

Tokenização adiciona novas propriedades a um ativo, também adiciona novas dependências.

O ativo pode continuar funcionando enquanto sua blockchain não

Um título do Tesouro tokenizado ajuda a entender essa diferença.

O governo americano pode continuar honrando suas obrigações. O título subjacente pode permanecer normalmente custodiado e sua propriedade jurídica continuar válida.

Ainda assim, a infraestrutura utilizada para movimentar sua representação digital pode ficar indisponível.

A blockchain pode parar. Um smart contract pode apresentar uma vulnerabilidade. Uma bridge pode falhar. Nada disso necessariamente destrói o ativo subjacente, mas pode impedir temporariamente que sua versão tokenizada seja transferida ou utilizada.

Essa distinção ganha importância à medida que fundos, títulos, crédito e outros instrumentos financeiros começam a migrar para blockchains. Quanto maior o valor colocado on-chain, mais relevante se torna a confiabilidade da infraestrutura existente entre o investidor e aquilo que o token representa.

No caso da MANTRA, a vulnerabilidade apareceu em uma chamada upstream dependency: software utilizado pela rede, mas não necessariamente desenvolvido pela própria equipe.

A MANTRA afirma ter identificado o problema e estar preparando uma correção que precisa ser testada e coordenada com validadores antes da retomada normal da produção de blocos.

O episódio revela uma característica importante da infraestrutura blockchain.

Uma rede não é uma única peça de software. Ela depende de diferentes componentes desenvolvidos e mantidos por diferentes equipes.

Essa arquitetura permite que blockchains sejam construídas sem que cada projeto precise desenvolver tudo do zero.

Também significa que uma falha distante do ativo tokenizado pode afetar sua disponibilidade.

Ativos institucionais elevam o padrão exigido da blockchain

Uma das grandes promessas da tokenização é permitir que mercados funcionem além dos horários tradicionais.

Ativos podem teoricamente ser transferidos e liquidados continuamente porque uma blockchain não precisa esperar a abertura de uma bolsa ou o funcionamento de determinados intermediários.

Essa vantagem desaparece quando a própria rede fica indisponível.

Quando a MANTRA interrompeu a produção de blocos, transações foram congeladas e participantes do ecossistema precisaram suspender operações relacionadas à rede.

Para ativos cripto nativos, uma interrupção já representa um problema.

Para uma infraestrutura que pretende carregar títulos, fundos e outros instrumentos financeiros regulados, disponibilidade passa a ser parte central do produto.

Instituições precisam saber como registros serão preservados durante uma interrupção, como transações pendentes serão tratadas e como o estado da rede será recuperado quando as operações retornarem.

Isso muda também os critérios pelos quais blockchains destinadas à tokenização precisam ser avaliadas.

Velocidade e custo continuam importantes, mas disponibilidade, redundância, capacidade de recuperação e previsibilidade operacional ganham peso conforme aumenta o valor financeiro dependente da rede.

Tokenização adiciona uma nova camada de risco

Blockchain pode eliminar algumas das fricções existentes no sistema financeiro.

Liquidação pode ficar mais rápida. Processos podem ser automatizados. Ativos podem circular entre plataformas com maior facilidade.

Mas colocar um ativo on-chain não remove necessariamente os riscos que já existiam ao redor dele.

O emissor continua importando. O custodiante continua importando. A estrutura jurídica continua importando.

A diferença é que agora a infraestrutura tecnológica também importa.

Isso não enfraquece necessariamente a tese da tokenização. Mostra por que a escolha da infraestrutura se torna mais importante à medida que o mercado amadurece.

A MANTRA construiu sua proposta justamente ao redor de ativos do mundo real. Sua interrupção oferece, portanto, um exemplo particularmente útil dessa transição.

O ativo que uma blockchain representa pode continuar perfeitamente válido enquanto a infraestrutura necessária para movimentá-lo deixa temporariamente de funcionar.

Para um mercado que pretende transportar partes cada vez maiores do sistema financeiro para blockchains, essa distinção não é apenas técnica.

Tokenizar um ativo significa ganhar as propriedades da blockchain e também aceitar os riscos necessários para mantê-la funcionando.