A IA está revelando o verdadeiro valor das mineradoras de Bitcoin

A IA está revelando o verdadeiro valor das mineradoras de Bitcoin

O valor de uma mineradora de Bitcoin parecia relativamente simples de medir. Quanto maior sua capacidade computacional, menor seu custo de energia e maior sua produção de BTC, mais competitivo era o negócio. A infraestrutura existia para uma finalidade clara: transformar eletricidade em Bitcoin.

A inteligência artificial está começando a alterar essa equação.

A Riot Platforms assinou um contrato de 20 anos para fornecer 191 megawatts de capacidade de data center em seu campus de Rockdale, no Texas, para um grande laboratório de inteligência artificial identificado como a Anthropic. O acordo prevê US$ 9,1 bilhões em receita contratada até 2048 e pode chegar a US$ 16,1 bilhões caso sejam exercidas duas extensões adicionais de cinco anos.

O tamanho do contrato chama atenção, mas o aspecto mais importante está no ativo que a Riot está monetizando. A empresa não precisou descobrir uma nova criptomoeda nem aumentar sua produção de Bitcoin para encontrar outra fonte potencialmente gigantesca de receita. Precisou olhar para a infraestrutura construída ao redor da mineração e perceber que ela também possui exatamente aquilo que outra indústria está desesperadamente procurando, energia.

O negócio das mineradoras sempre foi maior do que parecia

A mineração de Bitcoin exige algo difícil de obter em grande escala: acesso contínuo a enormes quantidades de eletricidade.

Para construir suas operações, grandes mineradoras passaram anos adquirindo terrenos, negociando conexão com redes elétricas, desenvolvendo infraestrutura energética e construindo instalações capazes de consumir centenas de megawatts.

Enquanto o Bitcoin era o principal comprador dessa energia, esses ativos eram avaliados essencialmente pela quantidade de BTC que conseguiam produzir.

A explosão da inteligência artificial criou um segundo comprador.

Treinar e operar grandes modelos exige data centers com volumes extraordinários de eletricidade, e a disponibilidade de energia tornou-se um dos principais gargalos da expansão da infraestrutura de IA. Em algumas regiões, o problema não é simplesmente quanto custa um megawatt-hora, mas quanto tempo uma nova instalação precisa esperar para conseguir conexão suficiente à rede elétrica, isso transforma a posição das mineradoras.

Uma companhia que já possui terrenos, instalações e centenas de megawatts de capacidade conectada não controla apenas uma fábrica de Bitcoin, ela controla acesso a um recurso escasso que agora também pode ser vendido para uma das indústrias que mais rapidamente ampliam sua demanda energética.

O mercado começa a perceber essa diferença.

Bitcoin e IA começaram a disputar os mesmos megawatts

A Riot está longe de ser um caso isolado.

TeraWulf, Core Scientific, Hut 8, Cipher e outras companhias originalmente associadas à mineração já fecharam contratos bilionários ligados a inteligência artificial e high-performance computing. Até março, mais de US$ 70 bilhões em contratos acumulados de IA e HPC haviam sido anunciados entre empresas públicas do setor. A TeraWulf acumulava US$ 12,8 bilhões em contratos, a Core Scientific possuía um acordo ampliado de US$ 10,2 bilhões com a CoreWeave, enquanto a Hut 8 havia fechado um contrato de US$ 7 bilhões para infraestrutura de IA.

A mudança começa inclusive a aparecer nas expectativas sobre a composição das receitas dessas empresas. Projeções compiladas pela S&P Global apontam que HPC pode representar cerca de 70% da receita da TeraWulf e 71% da Core Scientific, enquanto Cipher poderia chegar a aproximadamente 34%. Para empresas que até poucos anos atrás eram avaliadas quase exclusivamente como mineradoras, essa transformação é difícil de ignorar.

A própria TeraWulf hoje se apresenta como uma companhia de infraestrutura energética para IA e HPC. A mudança de linguagem é reveladora. A eletricidade que antes precisava encontrar sua utilidade econômica na mineração de Bitcoin agora possui outro mercado disposto a pagar por ela.

Isso não significa necessariamente o fim da mineração. Significa que o Bitcoin deixou de ser o único produto capaz de determinar o valor daquela infraestrutura.

A pressão sobre a mineração acelera a mudança

A transformação acontece em um momento particularmente importante para o setor.

As mineradoras públicas venderam aproximadamente 28 mil BTC em 2026, equivalentes a cerca de US$ 1,78 bilhão, enquanto margens mais apertadas pressionam empresas que precisam financiar suas operações. A dificuldade da rede também registrou uma queda relevante à medida que parte da capacidade deixou o mercado.

A mineração possui uma característica econômica difícil de eliminar: sua receita permanece profundamente ligada ao preço do Bitcoin, à dificuldade da rede e ao custo da energia.

IA oferece outra possibilidade.

Contratos de data center podem transformar parte dessa infraestrutura em receitas de longo prazo contratadas com grandes empresas de tecnologia. No caso da Riot, um acordo de 20 anos cria uma previsibilidade econômica completamente diferente daquela proporcionada pela mineração, cujo resultado muda continuamente conforme preço, competição e dificuldade da rede.

Esse contraste ajuda a explicar por que Wall Street começa a olhar para algumas mineradoras de maneira diferente.

O ativo deixa de ser apenas sua capacidade de produzir Bitcoin.

Passa a ser sua capacidade de decidir qual atividade oferece o melhor retorno para a energia que controla.

Nem toda mineradora pode virar uma empresa de IA

Existe, porém, uma diferença importante entre possuir eletricidade e possuir um data center adequado para inteligência artificial.

Operações de mineração foram construídas para ASICs, equipamentos especializados que toleram condições bastante diferentes das exigidas por clusters de GPUs utilizados em IA. High-performance computing exige sistemas mais sofisticados de refrigeração, conectividade de fibra, redundância energética, segurança e níveis de disponibilidade que não são automaticamente encontrados em uma instalação de mineração.

Por isso, um grande pipeline de energia não garante que uma mineradora conseguirá convertê-lo em contratos de IA.

A vantagem está nas empresas capazes de combinar acesso à rede com capital, localização, infraestrutura e capacidade de execução.

Essa distinção provavelmente será cada vez mais importante. A demanda por energia pode elevar o valor dos ativos do setor, mas os maiores retornos devem ficar com quem conseguir transformar megawatts disponíveis em infraestrutura computacional confiável.

O verdadeiro ativo começa a aparecer

As mineradoras sempre foram avaliadas como uma maneira indireta de obter exposição ao Bitcoin. Quando o BTC subia, suas receitas aumentavam; quando a dificuldade ou os custos cresciam, suas margens diminuíam.

A inteligência artificial está revelando uma segunda forma de enxergar essas empresas.

Talvez o ativo estratégico de algumas das maiores mineradoras nunca tenha sido apenas o Bitcoin que produziam, era a infraestrutura necessária para produzi-lo.

Terrenos próximos à energia, conexões já aprovadas com redes elétricas, centenas de megawatts disponíveis e instalações construídas em locais capazes de receber operações intensivas em eletricidade.

O Bitcoin foi a melhor maneira encontrada para monetizar esses ativos, agora existe um concorrente.

E, se empresas de inteligência artificial continuarem oferecendo contratos bilionários e de décadas para acessar essa infraestrutura, a pergunta que definirá o futuro de algumas mineradoras pode deixar de ser quantos bitcoins conseguem produzir e passar a ser quanto vale cada megawatt que controlam e quem está disposto a pagar mais por ele.