Investir diretamente em criptomoedas exigiu uma infraestrutura diferente daquela utilizada para ações, títulos ou fundos.
O investidor podia manter seu patrimônio em uma corretora tradicional, mas precisava abrir conta em uma exchange para comprar Bitcoin ou outros criptoativos. Essa separação ajudou empresas como Coinbase, Kraken e Binance a construir negócios enormes ao redor de uma classe de ativos que Wall Street ainda não distribuía da mesma maneira.
A Charles Schwab está começando a reduzir essa distância.
A companhia anunciou que adicionará Solana, Avalanche e Chainlink à Schwab Crypto nos próximos meses. A plataforma, lançada gradualmente em maio, atualmente permite negociação direta apenas de Bitcoin e Ethereum.
Três novas moedas parecem pouco diante das centenas disponíveis em grandes exchanges. O que importa é onde elas estarão.
A Schwab possui 39,9 milhões de contas de corretagem e administra US$ 13,04 trilhões em ativos de clientes. Ações, ETFs e cripto podem ser acessados dentro da mesma infraestrutura utilizada pelo investidor para administrar o restante do patrimônio e isso começa a inverter uma dinâmica que definiu a indústria.
Exchanges cripto passaram a adicionar pagamentos, ações, derivativos e outros serviços para se aproximar de plataformas financeiras completas. Agora corretoras tradicionais começam a avançar sobre uma das funções que levaram investidores às exchanges: comprar cripto diretamente.
Bitcoin e Ethereum eram uma coisa. Altcoins são outra
A presença de Bitcoin e Ethereum em uma grande corretora americana já não representa a mesma ruptura de alguns anos atrás.
ETFs spot transformaram os dois ativos em produtos acessíveis por contas tradicionais de investimento, enquanto futuros, opções e custódia institucional ampliaram essa integração.
A própria Schwab já oferecia exposição indireta a cripto por meio de ETPs, futuros, opções e fundos antes de lançar negociação spot.
Solana, Avalanche e Chainlink levam esse movimento um passo adiante, são ativos com funções próprias dentro do ecossistema cripto e que historicamente exigiam que muitos investidores recorressem a plataformas especializadas para comprá-los diretamente.
A Schwab ainda está muito longe de reproduzir o catálogo de uma Binance ou Coinbase. Cinco ativos representam uma seleção extremamente limitada, mas a companhia já afirma que pretende adicionar outros criptoativos ao longo do tempo.
Se essa prateleira continuar crescendo, a negociação direta de cripto começa a perder parte de seu caráter excepcional.
Para determinado tipo de investidor, pode se tornar apenas mais uma categoria dentro da conta de investimentos.
A Schwab não precisa conquistar um novo cliente
Essa talvez seja sua maior vantagem competitiva.
Uma exchange precisa convencer alguém a abrir uma conta, transferir dinheiro e estabelecer uma nova relação financeira. A Schwab já possui essa relação com milhões de investidores e trilhões de dólares em patrimônio.
Em pesquisa realizada pela própria companhia antes do lançamento da Schwab Crypto, familiaridade e reputação da marca, segurança dos ativos e preços transparentes apareceram entre os principais fatores considerados na escolha de uma plataforma para negociar criptomoedas.
A empresa também afirma que seus clientes já detêm aproximadamente 20% dos ETPs spot de cripto.
Isso significa que a demanda por ativos digitais já existe dentro da base da Schwab.
Para alguém que mantém ações, ETFs, caixa e outros investimentos na corretora, comprar Solana não precisa mais significar abrir uma conta em uma empresa especializada e separar essa posição do restante do portfólio.
A Schwab não precisa necessariamente convencer esse cliente a comprar cripto. Precisa oferecer cripto suficiente para que ele não tenha motivo para sair da plataforma quando decidir fazê-lo.
É aí que a competição com as exchanges começa a mudar.
A fronteira ainda existe onde começa a blockchain
Corretoras tradicionais continuam oferecendo uma experiência muito diferente daquela encontrada em uma exchange cripto.
A Schwab Crypto funciona por meio de uma conta vinculada à corretora. A custódia é realizada pela Charles Schwab Premier Bank, enquanto a Paxos fornece serviços de subcustódia e execução das negociações.
A plataforma também ainda não permite transferir cripto para carteiras externas, embora a Schwab diga que pretende adicionar depósitos e saques no futuro.
Essa limitação estabelece uma divisão importante.
Para um investidor que simplesmente quer comprar Bitcoin ou Solana e acompanhar seu valor dentro de um portfólio, uma corretora tradicional pode oferecer cada vez mais do que ele procura.
Para alguém que quer retirar os ativos, utilizar uma carteira própria, acessar aplicações on-chain ou participar diretamente de protocolos, a infraestrutura especializada continua necessária.
A Schwab, portanto, não precisa substituir Coinbase, Kraken ou Binance para alterar a competição, ela pode disputar justamente o cliente que quer possuir cripto sem necessariamente utilizar cripto.
Essa distinção ajuda a explicar por que adicionar apenas três ativos importa.
Exchanges tentaram aumentar o número de atividades financeiras que seus clientes poderiam realizar sem sair de suas plataformas. A Schwab parte da posição inversa: praticamente toda a relação financeira já está lá.
Agora começa a adicionar os ativos que antes davam ao cliente um motivo para sair.
A fronteira entre corretora e exchange não desaparece quando ambas oferecem exatamente os mesmos serviços. Ela começa a desaparecer quando o investidor deixa de precisar escolher entre elas para fazer o que deseja.


