Blockchain e stablecoins cresceram tão próximas que é fácil tratar a expansão de uma como consequência natural da outra.
O sistema financeiro começa a testar uma separação entre essas duas trajetórias.
Bancos estão tokenizando depósitos, instituições financeiras emitem ativos em redes distribuídas e bancos centrais estudam como liquidar operações nesses ambientes. A infraestrutura pode migrar para blockchain sem que o dinheiro utilizado nela precise necessariamente ser uma stablecoin privada.
Essa possibilidade ganhou força em Jackson Hole.
O diretor-geral do Banco de Compensações Internacionais, Pablo Hernández de Cos, afirmou que stablecoins não oferecem uma forma confiável de realizar pagamentos em grande escala. Para ele, depósitos bancários tokenizados podem incorporar vantagens da tokenização preservando características fundamentais do sistema monetário.
No mesmo encontro, Isabel Schnabel, membro do conselho executivo do Banco Central Europeu, defendeu que os próprios bancos centrais precisam estar presentes em infraestruturas on-chain.
As duas posições apontam para a mesma direção.
O sistema financeiro não precisa rejeitar blockchain para preservar o papel de bancos comerciais e bancos centrais. Pode adotar a tecnologia e tentar levar para ela o dinheiro que essas instituições já emitem.
A disputa, portanto, começa a mudar, deixa de ser simplesmente blockchain contra bancos e passa a envolver qual tipo de dinheiro ocupará a blockchain caso ela se torne parte importante da infraestrutura financeira.
Stablecoins e depósitos tokenizados resolvem o mesmo problema de maneiras diferentes
Para um usuário, as duas coisas podem parecer semelhantes.
USDC representa dólares em formato digital capazes de circular em blockchain. Um depósito bancário tokenizado também pode representar dinheiro denominado em dólares dentro de uma infraestrutura programável.
A diferença fundamental está em quem deve esse dinheiro.
Um depósito é uma obrigação de um banco comercial. Tokenizá-lo muda a tecnologia utilizada para representá-lo e movimentá-lo, mas preserva essa relação.
Uma stablecoin é emitida por uma entidade diferente e depende das reservas, das condições de resgate e da estrutura construída pelo emissor para manter sua paridade.
Essa distinção está no centro da preocupação do BIS.
Hernández de Cos argumenta que um sistema monetário precisa preservar a chamada singleness of money: diferentes formas de dinheiro denominadas na mesma moeda precisam continuar sendo aceitas pelo mesmo valor.
Quando US$ 100 são transferidos entre duas contas bancárias, o destinatário não precisa avaliar se aqueles dólares valem menos porque vieram de outra instituição.
Em um sistema formado por diferentes stablecoins, essa uniformidade precisa ser construída por meio de reservas, mecanismos de resgate, liquidez e conversibilidade entre tokens. O BIS também aponta desafios relacionados a interoperabilidade, combate à lavagem de dinheiro e soberania monetária.
Depósitos tokenizados oferecem outra abordagem: modernizar a maneira como dinheiro bancário circula sem criar uma camada monetária completamente separada, mas possuem seu próprio problema.
Um depósito tokenizado emitido pelo Banco A precisa continuar funcionando como dinheiro quando interage com o Banco B. Redes, instituições e padrões diferentes precisam ser interoperáveis para que a tokenização não produza justamente a fragmentação que pretende evitar.
Stablecoins chegam a essa disputa com uma vantagem importante: grande parte dessa circulação já existe. USDT e USDC operam continuamente em blockchains públicas e estão integradas a exchanges, carteiras e aplicações financeiras ao redor do mundo.
Os bancos precisam construir uma alternativa para uma infraestrutura que o mercado cripto já utiliza.
Se os depósitos forem on-chain, o banco central também precisa chegar lá
Mesmo depósitos bancários tokenizados não completam sozinhos a arquitetura, existe outra camada abaixo deles.
Quando instituições financeiras precisam liquidar definitivamente obrigações entre si, utilizam dinheiro do banco central. Se ativos e depósitos começarem a circular em novas infraestruturas, essa camada também precisa conseguir interagir com elas.
É justamente o argumento apresentado por Schnabel.
O BCE estuda maneiras de conectar infraestruturas DLT aos sistemas do Eurosistema e disponibilizar dinheiro de banco central para a liquidação de transações tokenizadas. O projeto Pontes faz parte dessa estratégia.
Isso permite imaginar uma arquitetura bastante diferente daquela associada às primeiras narrativas sobre blockchain.
Ativos podem ser tokenizados. Depósitos comerciais também. A liquidação pode acontecer utilizando dinheiro do banco central conectado à mesma infraestrutura.
A tecnologia muda profundamente enquanto a hierarquia monetária permanece reconhecível.
Bancos comerciais continuam criando depósitos e mantendo relações com clientes. Bancos centrais continuam fornecendo o ativo utilizado na liquidação final. Blockchain passa a funcionar como infraestrutura conectando essas camadas.
Esse cenário também ajuda a explicar por que a disputa não precisa terminar com um único vencedor.
Stablecoins podem permanecer particularmente úteis em mercados cripto, transferências internacionais e ambientes onde circulação aberta entre diferentes plataformas é importante. Depósitos tokenizados podem ganhar espaço em atividades profundamente integradas ao sistema bancário, enquanto dinheiro de banco central continua ancorando a liquidação entre instituições.
A verdadeira disputa é sobre quem controla o dinheiro on-chain
A importância desse debate vai além da tecnologia utilizada para realizar pagamentos.
Quem emite o dinheiro influencia onde ficam depósitos e reservas, como instituições se financiam, quem participa da criação de crédito e como bancos centrais conseguem fornecer liquidez durante períodos de estresse.
É por isso que a expansão das stablecoins representa uma questão estratégica para o sistema bancário.
A resposta que começa a surgir não é impedir que finanças migrem para blockchain, é tentar garantir que bancos e bancos centrais também consigam operar nela.
Isso produz uma inversão importante. A indústria cripto construiu stablecoins para levar dinheiro tradicional a uma infraestrutura nova. Agora instituições tradicionais tentam levar o próprio sistema monetário para essa infraestrutura.
O resultado pode ser um sistema financeiro muito mais tokenizado sem que stablecoins privadas necessariamente se tornem sua forma dominante de dinheiro.
A blockchain pode mudar os trilhos do sistema financeiro sem decidir, sozinha, quem continuará emitindo o dinheiro que circula sobre eles.

