Recompra de tokens cresce no mercado cripto, mas pode não criar valor duradouro

Recompra de tokens cresce no mercado cripto, mas pode não criar valor duradouro

Recompra de tokens virou uma das estratégias mais usadas por projetos de criptomoedas para direcionar parte de suas receitas ao próprio ativo.

Em 2026, os projetos analisados já gastaram cerca de US$ 640 milhões nesse tipo de operação, aproximadamente 17% a mais do que no mesmo período do ano anterior. O valor também representa um salto expressivo frente aos US$ 366 mil registrados em 2024.

Hyperliquid e Pump.fun respondem por quase 90% desse volume atual, segundo os dados apresentados pela pesquisa.

A lógica é semelhante à de programas de recompra de ações no mercado tradicional. O protocolo usa parte da receita para comprar seus próprios tokens no mercado e, em alguns casos, retirar esses ativos de circulação por meio de queimas.

A ideia é relativamente simples: criar demanda pelo token e, quando há queima, reduzir a oferta disponível. Na prática, isso pode gerar pressão de alta sobre o preço.

Para Orest Gavryliak, diretor jurídico da exchange descentralizada 1inch, projetos costumam recorrer a esse mecanismo principalmente para diminuir a quantidade de tokens em circulação ou tornar mais clara a relação entre a receita do protocolo e o ativo.

“When projects implement revenue-funded buybacks and burns, they typically have one of two objectives in mind: either to decrease the token supply in circulation or to demonstrate the rationale for investing in protocol revenues.”

Esse movimento também tenta resolver uma questão antiga do mercado cripto: como fazer com que o crescimento de um protocolo tenha uma relação mais direta com o valor econômico de seu token.

Max Shannon, pesquisador sênior da Bitwise Europe, avalia que recompras e queimas podem criar uma demanda contínua pelo ativo e aproximar o desempenho do token da adoção da plataforma.

Cada dólar usado para comprar o próprio token deixa de ser usado em outras áreas, como contratação de desenvolvedores, expansão do negócio, fortalecimento do caixa ou desenvolvimento do produto.

Recompra de tokens nem sempre é o melhor uso da receita

Hyperliquid, por exemplo, direciona 99% de sua receita para comprar e queimar HYPE. No caso da Pump.fun, metade da receita é destinada à compra e queima do próprio token, com US$ 446,65 milhões em PUMP já retirados de circulação.

O protocolo de infraestrutura DeFi Spark adotou uma abordagem diferente. Mais de 143 milhões de SPK foram adquiridos por meio de recompras no mercado financiadas pelo excedente do protocolo, mas os tokens não foram queimados. Eles permanecem no tesouro da plataforma.

Segundo o cofundador e CEO Sam MacPherson, o objetivo é permitir que os detentores participem do crescimento econômico de longo prazo do protocolo, mantendo flexibilidade sobre o uso futuro dos tokens adquiridos.

Para MacPherson, a pergunta mais importante não é simplesmente quanto dinheiro deve ser devolvido aos detentores, mas qual é o melhor destino para o próximo dólar de excedente gerado pelo protocolo.

Esse ponto é central porque uma recompra pode melhorar a dinâmica do token sem necessariamente melhorar o negócio por trás dele.

Os preços também não oferecem uma resposta definitiva. A Pump.fun vem comprando e queimando PUMP desde julho de 2025, mas o token continua cerca de 50% abaixo de sua máxima histórica de setembro de 2025.

O mesmo aconteceu com UNI, que devolveu aproximadamente metade dos ganhos registrados depois que a Uniswap apresentou sua proposta de unificação, em novembro de 2025.

Esses movimentos não provam, isoladamente, que a estratégia de recompra falhou. Como observa Shannon, diversos fatores influenciam os preços dos tokens. Ainda assim, os casos alimentam a discussão sobre quanto da receita deveria ser direcionado para recompras e quanto deveria ser reinvestido no projeto.

A questão também passa pela natureza jurídica dos tokens. Embora o mecanismo lembre programas de recompra de ações, um token geralmente não oferece os mesmos direitos legais de uma ação, como participação societária, dividendos ou direito sobre os ativos remanescentes de uma empresa.

Gavryliak resume essa diferença ao dizer que a recompra é um mecanismo de mercado, e não um direito legalmente exigível.

MacPherson classifica o SPK como uma espécie de “pseudo-equity”: economicamente, o modelo tenta aproximar governança, alinhamento de longo prazo e participação no sucesso do protocolo de algumas características da estrutura acionária tradicional, sem criar uma relação societária equivalente.

No fim, a questão para os investidores continua sendo a mesma: o token possui valor porque o protocolo gera receita, atrai usuários e tem uma economia sustentável ou porque o próprio projeto está constantemente comprando o ativo?

Uma recompra de tokens pode fortalecer a conexão entre o protocolo e seus detentores, mas não transforma, sozinha, um projeto pouco sustentável em um negócio saudável.

Como alerta MacPherson: “A buyback doesn’t make an unsustainable protocol sustainable.”

Para Gavryliak, existe uma pergunta ainda mais simples para avaliar a dependência dessa estratégia: “If the buybacks stopped, would there still be a reason to hold the token?”

Se a resposta for não, o problema provavelmente está além da tokenomics.