Uma nova proposta de atualização técnica está gerando um debate acalorado no ecossistema da maior criptomoeda do mundo. A BIP-110 (Bitcoin Improvement Proposal 110) visa alterar as regras de consenso da rede, dividindo opiniões entre mineradores, desenvolvedores e grandes investidores sobre os rumos do projeto.
O objetivo central da BIP-110 é restringir temporariamente os métodos utilizados para gravar dados arbitrários dentro da blockchain do Bitcoin. Na prática, isso afetaria diretamente a criação de inscrições e tokens que ganharam popularidade nos últimos anos.
Defensores da medida argumentam que a mudança é necessária para reduzir o “spam” de dados e preservar o foco do Bitcoin como moeda digital pura. Por outro lado, os críticos temem que a proposta rejeite transações legítimas e abra um precedente perigoso de intervenção.
Caso seja aprovada como um soft fork, a BIP-110 limitará a maioria das novas saídas de transação a 34 bytes. Além disso, ela redefinirá o limite para saídas OP_RETURN em 83 bytes e restringirá recursos do Taproot que hoje viabilizam os chamados Ordinals.
Essas restrições técnicas desagradam grandes nomes do setor. Michael Saylor, presidente executivo da Strategy, manifestou-se contra a proposta na rede social X, destacando que há prioridades muito mais urgentes para o ecossistema.
“Existem 110 coisas mais perigosas para o Bitcoin do que o spam. A BIP-110 transforma uma disputa de spam em uma mudança de consenso que invalidaria algumas transações atualmente válidas e pagadoras de taxas. Esse precedente é o perigo. Deveríamos poupar nossa energia para ameaças que realmente importam”, escreveu Saylor.
O impacto da BIP-110 na resistência à censura do Bitcoin
Com o início do período de sinalização obrigatória agendado para agosto, a adesão à proposta por parte de quem valida as transações ainda é extremamente baixa. Até o momento, apenas 1% dos mineradores expressaram apoio ao projeto em seu painel de monitoramento.
O CEO da Blockstream, Adam Back, lembrou que o design descentralizado do Bitcoin impede que um grupo imponha suas vontades sobre os demais. Ele sugeriu que os defensores da mudança criem sua própria bifurcação de rede, caso insistam na ideia.
“Se você não quer ouvir a razão, educar-se, aprender, a mesma liberdade radical se aplica a você: seu recurso sem permissão é se unir e criar um fork”, provocou Back, reforçando que a rede principal do Bitcoin não deve aderir ao movimento.
Essa disputa remete diretamente à famosa “Guerra dos Blocos” ocorrida entre 2015 e 2017. Naquela época, a divergência sobre a capacidade de processamento de transações culminou na divisão que deu origem ao Bitcoin Cash.
Embora muitos compartilhem da preocupação com o volume de dados adicionais na rede, a falta de consenso amplo entre os participantes continua sendo o maior obstáculo para que a polêmica proposta ganhe tração no mercado.




