Wall Street abre espaço para perpetual futures, enquanto grandes bancos esperam o mercado amadurecer

Wall Street abre espaço para perpetual futures, enquanto grandes bancos esperam o mercado amadurecer

Os perpetual futures começaram a ganhar espaço no mercado regulado dos Estados Unidos, mas a adoção pelas maiores instituições financeiras ainda deve levar tempo. Enquanto corretoras de criptomoedas e empresas de trading avançam rapidamente, os grandes bancos de Wall Street preferem esperar por mais liquidez, clareza regulatória e infraestrutura antes de ampliar sua atuação.

Também conhecidos como perps, os perpetual futures são contratos futuros que não possuem data de vencimento. Em vez de exigir a renovação periódica da posição, eles utilizam pagamentos de financiamento para manter o preço próximo ao ativo de referência.

O produto já é um dos principais instrumentos do mercado global de criptomoedas. Segundo estimativa do Bank of America, o volume anual negociado em perpetual futures gira em torno de US$ 90 trilhões.

Perpetual futures ainda enfrentam desafios para conquistar Wall Street

O interesse aumentou após a Commodity Futures Trading Commission (CFTC) autorizar, em 29 de maio, que a Kalshi oferecesse contratos do tipo nos Estados Unidos. A Coinbase também recebeu aprovação para listar perpetual futures regulados no país.

Os primeiros resultados chamaram atenção. A Kalshi ultrapassou US$ 1 bilhão em volume negociado na primeira semana após o lançamento do produto, tornando esta a estreia de maior sucesso da empresa desde seus mercados de previsão. A plataforma também já solicitou autorização para lançar perpetual futures vinculados ao ouro e à prata.

Apesar do crescimento, fontes familiarizadas com as discussões afirmam que os grandes bancos seguem apenas acompanhando a evolução desse mercado. O movimento inicial deve ser liderado por empresas de trading proprietário, formadores de mercado e novas companhias de compensação, que possuem maior flexibilidade para testar produtos e assumir riscos operacionais.

Para os bancos tradicionais, a situação é diferente. Além de regras de capital mais rígidas, essas instituições precisam atender exigências regulatórias, obrigações com clientes e controles internos mais complexos.

Nesse cenário, o potencial de receita ainda não compensa os investimentos necessários em sistemas de risco, compliance e infraestrutura.

Especialistas também apontam que os perpetual futures podem atender necessidades além da especulação. Como funcionam praticamente 24 horas por dia, eles permitem que investidores ajustem posições durante fins de semana, período em que os mercados tradicionais permanecem fechados mesmo diante de eventos como conflitos, eleições ou decisões econômicas.

Segundo um participante da indústria, “The demand has to be there, or the capital won’t be,” destacando que as instituições só tendem a direcionar mais recursos quando houver demanda suficiente por parte dos clientes.

Ainda assim, os obstáculos permanecem. A liquidez nos finais de semana continua limitada, dificultando operações de grande porte sem impacto relevante nos preços. Além disso, os sistemas de garantia e movimentação de colaterais nem sempre acompanham a velocidade das negociações.

Outro ponto em debate envolve a classificação regulatória desses contratos. Autoridades e participantes do mercado discutem se determinados perpetual futures devem ser enquadrados como contratos futuros ou swaps, definição que influencia regras de margem, exigências de registro e participação de provedores de liquidez.

A discussão também envolve concorrência entre bolsas. O CME contestou a forma como a CFTC tratou os perpetual futures de bitcoin da Kalshi, argumentando que esses contratos deveriam seguir outro enquadramento regulatório. Novos debates semelhantes podem surgir caso as bolsas tentem expandir esse modelo para ações, commodities e outros mercados tradicionais.

Outra fonte do setor resumiu esse cenário afirmando: “A lot of this stuff… is more commercial than people are going to admit to out loud,” sugerindo que parte da resistência também reflete a defesa dos modelos de negócio das bolsas já estabelecidas.

Por enquanto, o mercado vê os perpetual futures como uma oportunidade relevante para ampliar a negociação de ativos financeiros nos Estados Unidos. No entanto, a expectativa é que as maiores instituições financeiras aguardem maior maturidade regulatória, crescimento da liquidez e evolução da infraestrutura antes de participar de forma mais ampla.