A tokenização costuma ser apresentada como uma tentativa de construir um mercado financeiro alternativo. Ações, títulos públicos, fundos e outros ativos deixariam os sistemas tradicionais para circular em blockchains, com negociação contínua, liquidação quase imediata e acesso mais amplo.
Os acontecimentos recentes apontam para uma transformação diferente.
Wall Street não parece disposta a abandonar sua infraestrutura para migrar para um sistema criado fora dela. Instituições responsáveis pela custódia, negociação e liquidação de ativos começaram a absorver partes da tecnologia blockchain e conectá-las ao mercado que já controlam.
A distinção é importante. O futuro da tokenização talvez não seja a substituição do mercado tradicional por um mercado inteiramente novo.
Pode ser a incorporação da blockchain ao funcionamento das instituições existentes, até que a diferença entre um ativo convencional e sua representação tokenizada deixe de importar.
A principal evidência dessa mudança veio da Depository Trust & Clearing Corporation, a DTCC. A organização ocupa uma posição central na infraestrutura de pós-negociação dos Estados Unidos e está envolvida na custódia, compensação e liquidação de valores mobiliários.
Em 15 de julho, a DTCC processou operações reais com ativos tokenizados mantidos sob custódia da Depository Trust Company.
Mais de 30 instituições financeiras tradicionais e participantes do mercado digital estiveram envolvidos. O exercício antecede o lançamento comercial do serviço de tokenização, previsto para outubro.
O que torna essa iniciativa relevante não é apenas o uso de uma blockchain. É a maneira como os ativos foram estruturados.
Os títulos tokenizados mantêm os mesmos direitos legais e econômicos dos valores mobiliários convencionais, incluindo direitos a dividendos e voto. Também podem ser convertidos novamente para sua forma tradicional.
A DTCC não está criando uma representação informal de ativos que continuam custodiados em outro lugar, está construindo uma ponte para que o mesmo título possa circular entre sistemas tradicionais e redes blockchain.
O ativo continua o mesmo, mas o mercado começa a mudar
Grande parte das primeiras experiências de tokenização reproduzia um ativo do mundo tradicional dentro de uma blockchain. O token funcionava como um recibo ou uma representação digital, enquanto a propriedade legal, a custódia e a liquidação continuavam dependendo de estruturas externas.
Isso limitava a transformação.
Colocar uma ação em uma blockchain não muda necessariamente o funcionamento do mercado caso a transferência efetiva da propriedade, o pagamento, a custódia e o uso do ativo como garantia continuem presos a sistemas separados.
A iniciativa da DTCC tenta resolver justamente essa divisão. O objetivo declarado é permitir que ativos se movimentem entre diferentes plataformas, redes e formatos, conectando ambientes tradicionais e baseados em blockchain. A organização relaciona essa interoperabilidade à mobilidade de liquidez e à eficiência no uso de capital.
Não se trata, portanto, apenas de tornar uma ação negociável durante mais horas ou de permitir que investidores comprem pequenas frações de um título.
A mudança mais profunda está no pós-negociação, a parte menos visível e mais importante do mercado. É nesse estágio que as partes confirmam as operações, transferem os ativos, movimentam o dinheiro, atualizam a custódia e verificam se cada participante cumpriu suas obrigações.
A blockchain pode reduzir a distância entre essas etapas. Em vez de manter registros diferentes e reconciliá-los posteriormente, participantes autorizados podem compartilhar uma infraestrutura capaz de registrar a propriedade e executar a transferência do ativo de forma coordenada.
Isso não elimina automaticamente intermediários, riscos ou controles regulatórios. Também não significa que qualquer blockchain pública será capaz de receber os principais mercados de capitais. O que está surgindo é um modelo híbrido, com redes programáveis conectadas a instituições reconhecidas, regras jurídicas existentes e mecanismos de permissão.
Nesse modelo, a tokenização não destrói a arquitetura de Wall Street. Ela altera os trilhos sobre os quais essa arquitetura funciona.
A aproximação já alcançou quem fornece liquidez
A DTCC não está sozinha.
A Citadel Securities investiu US$ 400 milhões na Crypto.com, avaliando a plataforma em US$ 20 bilhões. Foi a primeira captação institucional da exchange em seus dez anos de existência. O capital deverá financiar a expansão para novas classes de ativos, incluindo valores mobiliários tokenizados e derivativos.
A identidade do investidor importa mais do que o valor.
A Citadel Securities é uma das maiores formadoras de mercado do mundo. Sua função não é simplesmente comprar ativos esperando que se valorizem, a empresa fornece liquidez e conecta compradores e vendedores em diferentes mercados.
Quando uma instituição com esse perfil investe em uma plataforma de ativos digitais, a decisão sugere que a convergência deixou de ser observada apenas por bancos que experimentam blockchains em projetos isolados. Ela passou a interessar diretamente às empresas que organizam a negociação e a liquidez dos mercados.
Jim Esposito, presidente da Citadel Securities, descreveu a aproximação entre os mercados tradicionais e a infraestrutura de ativos digitais como uma evolução capaz de melhorar a eficiência do sistema.
A declaração não apresenta as criptomoedas como concorrentes externas, mas como componentes de uma infraestrutura financeira em formação.
Esse movimento ocorre enquanto exchanges de criptomoedas ampliam sua atuação para ações, derivativos e outros produtos financeiros. Ao mesmo tempo, bancos, gestores e operadores de mercado avançam sobre custódia, stablecoins, liquidação em blockchain e ativos tokenizados. As duas indústrias começaram a ocupar o mesmo território.
A fronteira que separava as empresas cripto de Wall Street está ficando menos nítida porque ambas tentam construir plataformas capazes de reunir várias classes de ativos.
O resultado pode não ser uma vitória de um lado sobre o outro. Pode ser a formação de um mercado híbrido no qual as empresas mais importantes serão aquelas capazes de conectar liquidez, custódia, identidade, conformidade e liquidação entre diferentes sistemas.
Wall Street pode absorver a revolução que deveria substituí-la
A tokenização nasceu cercada pela promessa de desintermediação. A tecnologia permitiria que investidores negociassem diretamente, sem depender da extensa cadeia de agentes presente nos mercados tradicionais.
Essa promessa não desapareceu, mas está sendo reinterpretada.
A blockchain pode reduzir algumas funções operacionais sem eliminar as instituições responsáveis por garantir direitos legais, verificar participantes, administrar riscos e oferecer acesso aos mercados. Em vez de desaparecerem, essas instituições podem usar a tecnologia para fortalecer sua posição.
A DTCC está em uma condição especialmente favorável. Ela já ocupa o centro do sistema financeiro americano, possui relações com bancos, corretoras e gestoras e opera a infraestrutura da qual esses participantes dependem. Ao transformar ativos convencionais em títulos interoperáveis com blockchains, não precisa convencer o mercado a abandonar o sistema atual. Precisa apenas oferecer uma nova forma de utilizar os mesmos ativos.
Essa abordagem também responde a uma das principais fragilidades das primeiras iniciativas de tokenização: a fragmentação.
Um ativo tokenizado tem pouco valor operacional quando só pode circular dentro de uma plataforma com poucos participantes. Para produzir liquidez real, ele precisa ser reconhecido por custodiante, corretoras, formadores de mercado e sistemas de liquidação.
A vantagem da DTCC não está em possuir a blockchain mais rápida. Está na capacidade de reunir as instituições que já formam o mercado.
Ainda existem obstáculos relevantes. A regulamentação dos títulos tokenizados está em desenvolvimento, e participantes tradicionais alertam que mudanças mal estruturadas podem criar novos riscos para investidores e para o sistema. A própria discussão regulatória nos Estados Unidos demonstra que a eficiência tecnológica não elimina questões sobre proteção, prioridade jurídica, custódia e responsabilidade.
Também não está claro até que ponto os sistemas serão verdadeiramente abertos. A adoção institucional pode produzir redes altamente controladas, nas quais apenas entidades autorizadas realizam determinadas operações. Essa infraestrutura aproveitaria a programabilidade das blockchains, mas manteria características centrais do mercado tradicional.
Mesmo com essas limitações, a direção do movimento parece cada vez mais clara.
A pergunta já não é apenas quantos ativos serão tokenizados. É quem controlará a infraestrutura na qual eles serão emitidos, transferidos, custodiados e usados como garantia.
Por muito tempo, o mercado cripto imaginou que a blockchain criaria uma alternativa a Wall Street. Os últimos movimentos sugerem algo menos revolucionário na aparência, mas potencialmente mais importante na prática: Wall Street pode incorporar a tecnologia, preservar suas instituições centrais e transformar gradualmente o mercado por dentro.
Quando isso acontecer, talvez ninguém precise anunciar que a migração terminou. Uma ação continuará sendo uma ação. Um título público continuará sendo um título público. A diferença estará na infraestrutura invisível que permite que esses ativos circulem.
E, quando essa infraestrutura mudar, ainda fará sentido separar o mercado tradicional do mercado tokenizado?




