Durante anos, a disputa entre USDC e Tether foi tratada quase exclusivamente como uma corrida por capitalização de mercado. Quanto maior a quantidade de stablecoins em circulação, maior parecia ser a liderança de cada projeto.
Os números divulgados nas últimas semanas sugerem que essa lógica começa a mudar. Embora o Tether continue sendo, com ampla margem, a maior stablecoin do mundo, o USDC passou a liderar uma métrica que pode se tornar cada vez mais relevante para a indústria: o volume econômico efetivamente movimentado.
Dados da Visa Onchain Analytics, desenvolvidos em parceria com a Allium Labs, mostram que o USDC respondeu por aproximadamente 70% do volume ajustado de stablecoins no primeiro semestre de 2026, enquanto o USDT ficou próximo de 25%. A diferença chama atenção porque ocorre justamente em um momento em que o Tether mantém uma oferta em circulação muito superior à de seu principal concorrente.
A aparente contradição revela uma mudança silenciosa no mercado. Em vez de disputar exatamente o mesmo espaço, as duas maiores stablecoins começam a atender necessidades diferentes dentro da economia digital.
A liderança deixou de ser medida apenas pela quantidade de moedas emitidas
O crescimento do mercado de stablecoins sempre foi acompanhado pela evolução de sua oferta em circulação. Essa métrica continua importante porque indica liquidez e participação de mercado, mas ela já não responde sozinha à pergunta mais relevante para investidores e empresas: qual stablecoin está sendo efetivamente utilizada?
Foi justamente para responder essa questão que surgiram indicadores como o volume ajustado.
Ao contrário do volume bruto registrado nas blockchains, essa metodologia procura eliminar transações que pouco representam atividade econômica real, como movimentações internas de exchanges, operações automatizadas, arbitragem e transferências repetitivas entre carteiras relacionadas. O objetivo é aproximar os dados daquilo que realmente representa pagamentos, liquidação financeira e uso comercial.
Sob essa ótica, o USDC aparece hoje como protagonista.
Isso não significa que tenha ultrapassado o Tether em tamanho. Significa que uma parcela crescente da atividade econômica realizada com stablecoins está acontecendo sobre uma infraestrutura diferente daquela que dominou o mercado durante a última década.
O Tether continua dominante, mas em outro segmento
Os números não indicam um enfraquecimento do USDT.
Muito pelo contrário.
O Tether permanece como a principal fonte de liquidez das exchanges centralizadas, continua sendo a stablecoin mais utilizada em negociações internacionais e mantém presença dominante em mercados onde acesso bancário, regulação e infraestrutura financeira ainda são mais limitados.
Essa posição dificilmente será substituída no curto prazo.
Sua enorme liquidez, ampla integração com plataformas de negociação e adoção consolidada fazem do USDT a principal moeda operacional do mercado de criptomoedas.
O que está mudando não é sua relevância, mas o ambiente onde ela é exercida.
Enquanto o Tether continua sustentando boa parte da atividade ligada ao trading, o USDC passa a ganhar espaço em segmentos onde conformidade regulatória, transparência das reservas e integração com instituições financeiras se tornaram fatores decisivos.
A expansão do USDC acompanha uma nova fase da economia digital
O crescimento do USDC ocorre ao mesmo tempo em que bancos, gestoras de ativos e empresas aceleram projetos de tokenização, pagamentos internacionais e liquidação de ativos digitais.
Nesse ambiente, características como supervisão regulatória, auditorias frequentes e relacionamento próximo com o sistema financeiro tradicional passaram a exercer um peso maior na escolha da infraestrutura utilizada.
A própria evolução da legislação em mercados como Estados Unidos e União Europeia favorece soluções capazes de operar dentro de estruturas regulatórias cada vez mais definidas.
Isso ajuda a explicar por que o USDC vem aparecendo com mais frequência em iniciativas ligadas a pagamentos corporativos, ativos tokenizados e liquidação entre instituições financeiras.
Não se trata apenas de crescimento em circulação, mas de uma mudança no perfil de quem utiliza a stablecoin.
A disputa das stablecoins está se tornando mais sofisticada
Durante muito tempo, parecia inevitável que apenas uma stablecoin dominasse praticamente todo o mercado.
Os dados mais recentes sugerem um cenário diferente.
Em vez de uma disputa direta pelo mesmo espaço, começa a surgir uma especialização natural.
O USDT mantém sua posição como principal moeda de liquidez do universo cripto, servindo traders, exchanges e mercados globais onde velocidade e disponibilidade continuam sendo prioridades.
O USDC, por outro lado, fortalece sua presença em aplicações institucionais, pagamentos, tokenização e infraestrutura financeira regulada.
Essa divisão reduz a percepção de que uma stablecoin necessariamente precisa substituir a outra para crescer.
Cada uma passa a responder a demandas distintas dentro de um mercado que também se tornou mais diverso.
O próximo capítulo pode ser definido pelo uso, e não pelo tamanho
À medida que stablecoins deixam de servir apenas como instrumentos de negociação e passam a desempenhar papel central em pagamentos, liquidação financeira e tokenização de ativos, novas métricas tendem a ganhar importância.
Capitalização de mercado continuará sendo um indicador relevante, mas talvez já não seja suficiente para explicar quem realmente lidera a economia digital.
Se essa tendência continuar, o mercado passará a avaliar stablecoins não apenas pela quantidade de moedas emitidas, mas pela intensidade com que elas movimentam empresas, instituições e aplicações do mundo real.
Nesse cenário, USDC e Tether podem continuar crescendo simultaneamente sem disputar exatamente o mesmo território. A competição deixa de ser apenas por tamanho e passa a refletir algo muito mais importante para a próxima fase da indústria: qual infraestrutura cada segmento da economia digital escolhe utilizar.



