As stablecoins deixaram de ser apenas um instrumento do mercado de criptomoedas e passaram a ocupar um espaço estratégico dentro do sistema financeiro tradicional. Em vez de discutir se esses ativos digitais fazem sentido para os bancos, grandes instituições agora trabalham para definir como irão utilizá-los em pagamentos, liquidação de operações e serviços para clientes institucionais.
O movimento ganhou força após o Standard Chartered anunciar acesso direto para clientes institucionais à emissão e ao resgate do USDC, da Circle. Poucos dias antes, o BNY também ampliou sua infraestrutura para permitir custódia, emissão e resgate da mesma stablecoin, reduzindo a necessidade de que clientes desenvolvam soluções próprias.
A mudança mostra uma tendência crescente entre bancos globais: aproveitar redes de stablecoins já consolidadas, em vez de criar novos ativos do zero. Segundo Andrew MacKenzie, fundador da emissora Agant, a dúvida dentro das instituições financeiras mudou de foco. “Banks aren’t asking whether they’ll use stablecoins anymore. They’re deciding how they’ll use them.”
A discussão ganhou ainda mais destaque após o CEO da Circle, Jeremy Allaire, defender que o diferencial do USDC está na liquidez construída ao longo de quase uma década, nas relações bancárias e nas aprovações regulatórias. Para Adrian Cachinero Vasiljevic, sócio da Steakhouse Financial, o verdadeiro valor não está apenas na moeda digital, mas na rede criada ao seu redor. “The network is what creates the value.”
O que pode definir os destaques entre as stablecoins
Enquanto bancos ampliam sua participação, especialistas afirmam que a próxima disputa entre stablecoins não será decidida pelos rendimentos oferecidos aos investidores, mas pela capacidade desses ativos de serem aceitos como garantia em mercados financeiros.
Artem Tolkachev, diretor de ativos do mundo real (RWA) da Falcon Finance, argumenta que os chamados rendimentos sobre stablecoins são fáceis de copiar e tendem a perder relevância com o tempo. Na avaliação dele, o fator realmente decisivo será a aceitação desses ativos como colateral em bolsas, plataformas de empréstimos e outros mercados.
Na prática, uma stablecoin aceita como garantia permite que investidores negociem, tomem empréstimos ou protejam posições sem precisar vender seus ativos. Segundo Tolkachev, esse tipo de utilidade cria um diferencial competitivo muito mais difícil de replicar do que simplesmente oferecer uma remuneração maior.
Ao mesmo tempo, a Europa busca fortalecer alternativas em euro. Instituições reunidas no projeto Euro On-Chain (EUOC) defendem a criação de uma infraestrutura compartilhada para evitar que liquidações financeiras dependam exclusivamente de stablecoins atreladas ao dólar. A proposta é ampliar a liquidez em euro à medida que o mercado de ativos tokenizados cresce.
A expectativa é que a expansão da infraestrutura bancária, combinada com regras regulatórias mais claras e maior aceitação como garantia financeira, determine quais stablecoins conseguirão se consolidar nos próximos anos. Para especialistas do setor, emitir uma stablecoin será apenas o primeiro passo; o desafio será construir uma rede capaz de gerar uso contínuo por bancos, empresas e investidores.




