Quem decide para que serve uma blockchain?

Quem decide para que serve uma blockchain?

As blockchains podem ser planejadas. O comportamento dos usuários, não. 

Empresas podem definir a arquitetura de uma rede, escolher sua tecnologia e estabelecer o problema que pretendem resolver. O que elas não controlam é a forma como o mercado decidirá utilizá-la.

A conclusão ganhou um novo exemplo com a Robinhood. A empresa apresentou sua blockchain como uma infraestrutura voltada para ações tokenizadas e ativos financeiros tradicionais. Pouco depois do lançamento grande parte da atividade passou a girar em torno de memecoins e outros ativos especulativos.

O episódio pode parecer um desvio de rota.

Na verdade, ele repete um padrão observado desde os primeiros anos da indústria blockchain.

Infraestrutura pode ser planejada. Ecossistemas, não.

Quando uma nova blockchain chega ao mercado, seus criadores costumam apresentar uma visão bastante clara.

Uma rede para contratos inteligentes, outra para pagamentos e uma terceira para tokenização de ativos.

O plano costuma ser convincente, o mercado, porém, raramente segue esse roteiro.

Ethereum nasceu para permitir contratos inteligentes programáveis.

A primeira grande explosão veio com as ICOs.

Depois surgiram as finanças descentralizadas.

Mais tarde, NFTs, em seguida, memecoins.

Cada ciclo revelou um uso que não ocupava posição central na narrativa original do projeto.

O mesmo aconteceu com outras redes.

A Base, desenvolvida pela Coinbase para acelerar a adoção de aplicações descentralizadas, viu memecoins dominarem boa parte da atividade inicial.

Solana tornou-se referência em velocidade e eficiência, mas também construiu parte importante de sua liquidez em torno de ativos altamente especulativos.

A Robinhood parece apenas repetir uma história que o setor já conhece.

O mercado escolhe antes que a tecnologia amadureça

Existe uma razão econômica para esse comportamento.

Os primeiros usuários de uma infraestrutura nova raramente representam o público que seus criadores imaginam.

São participantes dispostos a assumir riscos maiores em busca de oportunidades também maiores.

Memecoins, arbitragem, negociações de alta frequência e estratégias especulativas costumam surgir antes dos casos de uso institucionais porque geram liquidez rapidamente.

Essa liquidez, embora muitas vezes criticada, ajuda a formar mercados, atrair desenvolvedores e criar infraestrutura financeira.

É um paradoxo curioso.

Os usos considerados menos nobres frequentemente financiam a construção dos usos considerados mais relevantes.

A tecnologia não determina seu destino

Existe uma tendência natural de imaginar que uma inovação seguirá exatamente o propósito definido por quem a criou.

A história mostra o contrário.

A internet nasceu para conectar centros de pesquisa.

O SMS foi desenvolvido como um canal auxiliar para operadoras de telefonia e acabou transformando a comunicação móvel.

O GPS surgiu para aplicações militares antes de se tornar parte da rotina de bilhões de pessoas.

Com blockchain acontece algo semelhante.

Os criadores definem possibilidades, o mercado decide prioridades.

Essa diferença explica por que previsões feitas no lançamento de uma rede raramente descrevem aquilo em que ela realmente se transforma anos depois.

O verdadeiro teste começa depois do lançamento

A Robinhood não fracassou porque memecoins apareceram primeiro.

Na verdade, esse talvez seja apenas o estágio inicial de formação do ecossistema.

O desafio começa agora.

A empresa precisará demonstrar que consegue transformar uma infraestrutura inicialmente ocupada por ativos especulativos em um ambiente atraente para ações tokenizadas, produtos financeiros regulados e investidores institucionais.

Esse processo exige tempo e também exige algo que nenhuma tecnologia consegue criar sozinha, confiança.

O mercado sempre terá a última palavra

Empresas podem investir bilhões para construir uma blockchain.

Podem definir sua arquitetura, velocidade, governança e objetivos.

O que não conseguem determinar é como milhões de participantes independentes utilizarão essa infraestrutura quando ela estiver aberta ao mercado.

Essa talvez seja uma das características mais interessantes da economia digital.

As tecnologias mais importantes raramente são lembradas apenas pelo problema que seus criadores tentaram resolver.

Elas são lembradas pelos problemas que o mercado decidiu resolver com elas.

E talvez seja exatamente por isso que prever o futuro de uma blockchain seja muito mais difícil do que construir uma.