Mineradores de Bitcoin veem taxas despencarem enquanto setor migra para IA

Mineradores de Bitcoin veem taxas despencarem enquanto setor migra para IA

Os mineradores de Bitcoin estão cada vez mais dependentes da recompensa fixa por bloco. As taxas de transação representam apenas 0,69% da receita do setor, próximo do menor nível em uma década, segundo dados da Glassnode.

A participação das taxas chegou a 0,52% da receita dos mineradores em abril. O indicador então apresentou uma recuperação modesta, mas continua abaixo de 1% há quase um ano, de acordo com Rafael Schultze-Kraft, cofundador da Glassnode.

A combinação de um Bitcoin mais barato e custos elevados de energia vem apertando as margens das empresas de mineração. Com menos receita, operações menores acabam deixando o mercado, enquanto companhias maiores buscam alternativas para seus equipamentos e infraestrutura.

A pressão aumentou após a queda do Bitcoin desde a máxima histórica registrada em outubro de 2025. O ativo perdeu quase 50% desde então, reduzindo também o valor em dólares da recompensa recebida pelos mineradores a cada bloco.

Atualmente, essa recompensa é de 3,125 BTC por bloco. Como as taxas de transação têm uma participação cada vez menor na receita total, os mineradores passam a depender ainda mais dessa emissão de novos bitcoins para sustentar a operação.

Uma estimativa da Checkonchain mostra outro ponto de pressão: o custo médio para produzir um Bitcoin estava em US$ 78.254 na terça-feira, quase 23% acima do preço à vista naquele momento.

Mineradores de Bitcoin reduzem hash rate e ampliam aposta em IA

A mudança no setor também aparece no hash rate da rede, uma estimativa do poder computacional usado para proteger o Bitcoin. Segundo a Checkonchain, o indicador caiu de 1,3 zettahashes por segundo (ZH/s), em outubro de 2025, para 861 exahashes por segundo (EH/s).

Isso representa uma queda de 33%.

Para William Clemente, a retração acontece em um momento no qual os mineradores poderiam, em teoria, aumentar a atividade por meio dos ajustes automáticos de dificuldade da rede. Ainda assim, a combinação entre margens menores e oportunidades mais rentáveis em computação para inteligência artificial tem levado empresas a mudar de estratégia.

“there is no other way to slice it, hash rate has been in a decline. This has taken place as miner margins got squeezed post 2022 from more competition and higher energy prices, but more importantly the pivot of many into AI/HPC, which so far have shown to be prudent business decisions for the public names that have done it,” escreveu Clemente.

A migração já aparece nas decisões de empresas do setor. A CleanSpark recentemente redirecionou parte de sua operação para inteligência artificial e passou a operar data centers depois de ficar abaixo das metas de lucro. Já a Keel Infrastructure encerrou todas as suas operações de mineração nos Estados Unidos após uma queda de 50% na receita no segundo trimestre.

Clemente também relacionou o movimento ao desempenho inferior do Bitcoin em comparação com ativos ligados à inteligência artificial e ao crescimento da demanda por capacidade computacional.

Para Charles Edwards, fundador do fundo Capriole Investments e da plataforma de IA da empresa, a queda do poder computacional é um dos movimentos mais relevantes do setor em 2026.

“This is the least talked about, concerning Bitcoin development in 2026,” afirmou Edwards, destacando que a migração de mineradores para IA ganhou velocidade desde abril.

A combinação entre taxas historicamente baixas, custos elevados, menor preço do Bitcoin e novas oportunidades em computação está mudando a economia da mineração. Para a rede, o ponto central passa a ser acompanhar até onde essa mudança no modelo de negócios pode avançar sem alterar significativamente a estrutura atual de segurança do Bitcoin.