Bitcoin e ouro sobem juntos — sinal de que o mercado está apostando contra o dólar

Bitcoin e ouro sobem juntos — sinal de que o mercado está apostando contra o dólar

A alta do Bitcoin voltou a chamar atenção do mercado cripto. Em sete dias, o ativo subiu 23,2%, movimento que veio acompanhado da valorização do ouro e do enfraquecimento do dólar.

Essa combinação reacendeu a chamada “debasement trade”, estratégia em que investidores compram ativos escassos para se proteger da inflação e da perda de poder de compra de moedas como o dólar.

O gatilho para a alta do bitcoin foi o anúncio do Tesouro dos Estados Unidos de uma expansão nas recompras de títulos de longo prazo. Com isso, o Bitcoin rompeu a faixa entre US$ 62 mil e US$ 67 mil, na qual estava travado havia semanas.

Na sexta-feira, o ativo chegou a superar os US$ 77 mil. O ouro também subiu no período e alcançou US$ 4.661, segundo dados da CME Group.

Para Lacie Zhang, analista de pesquisa da Bitget Wallet, a valorização simultânea de Bitcoin e ouro, em meio a um dólar fraco e juros elevados dos títulos do Tesouro, sinaliza uma mudança sutil no comportamento institucional.

Segundo ela, o Bitcoin está deixando de se comportar apenas como um ativo de risco tradicional. O ativo passa a dividir espaço com o ouro como proteção digital contra a desvalorização estrutural das moedas fiduciárias.

Já Jake Kennis, analista sênior da Nansen, avalia que o movimento é compatível com preocupações sobre a dívida americana e o dólar, mas ainda não é conclusivo.

Ele pondera que um dólar mais fraco combinado a juros elevados também pode refletir um prêmio de prazo maior ou incerteza sobre inflação e crescimento — não necessariamente uma perda de confiança nos títulos do Tesouro. Por ora, a correlação é sugestiva, não uma prova definitiva.

O momento também é marcado por sinais políticos favoráveis às criptomoedas em Washington. O presidente Donald Trump pediu ao Congresso que aprove uma versão equilibrada do Clarity Act.

Ao mesmo tempo, o presidente da CFTC, Michael Selig, afirmou que a agência está preparando regras próprias para o mercado cripto, caso o projeto de lei trave no Legislativo.

A ruptura acima de US$ 67 mil também provocou um short squeeze: traders que apostavam na queda do Bitcoin foram forçados a recomprar o ativo às pressas.

De acordo com a CoinGlass, mais de US$ 4 bilhões em posições vendidas foram liquidados durante o movimento.

Apesar do otimismo, Zhang faz uma ressalva: a alta pode refletir apenas um posicionamento de curto prazo, e não necessariamente uma virada duradoura contra o dólar.

O que pode confirmar se a alta do Bitcoin é mesmo uma fuga do dólar

Segundo Zhang, para separar um verdadeiro “voto contra o dólar” de um rali movido apenas por liquidez, é preciso observar de perto os juros reais e o posicionamento no mercado de derivativos.

Se os juros reais dos títulos protegidos contra a inflação (TIPS) continuarem elevados enquanto o interesse em aberto nos futuros liderar a demanda à vista, o movimento pode ser apenas tático — não uma retirada estrutural das moedas fiduciárias.

Ainda assim, ela destaca que a identidade dupla do Bitcoin, como proteção macroeconômica e como aposta em tecnologia, continua se fortalecendo à medida que o acesso institucional ao ativo cresce.

Kennis detalha o que caracterizaria uma verdadeira aposta contra a credibilidade fiscal dos Estados Unidos: ganhos sustentados em Bitcoin e ouro, enfraquecimento contínuo do dólar, aumento dos prêmios de risco de longo prazo e desempenho fraco dos títulos do Tesouro de longo prazo, possivelmente com expectativas de inflação mais altas.

Já um rali puramente ligado à liquidez seguiria de perto as expectativas de afrouxamento monetário do Federal Reserve e o comportamento de outros ativos de risco, como ações e crédito.

Para Kennis, uma demanda institucional ou específica do setor cripto apareceria em sinais como entradas em ETFs de Bitcoin, acumulação on-chain e desempenho do BTC superior ao de outros hedges macroeconômicos — não apenas um movimento em conjunto com o ouro.