Os tokens agora precisam provar que merecem o valor das redes que representam

Os tokens agora precisam provar que merecem o valor das redes que representam

O sucesso de uma rede e o valor de seu token foram tratados quase como a mesma coisa.

Mais usuários, transações, volume e liquidez indicavam maior adoção. À medida que o ecossistema crescia, o token associado a ele era naturalmente tratado como uma forma de capturar esse crescimento.

Essa relação nunca foi automática, mas durante anos o mercado aceitou a aproximação, agora ela começa a ser questionada.

Mais de 120 projetos cripto já aparecem na lista da RootData de iniciativas que encerraram operações, entraram em falência ou permaneceram inativas por longos períodos em 2026. A lista reúne exchanges, protocolos DeFi, empresas de infraestrutura e outros modelos de negócio, portanto não representa simplesmente uma relação de tokens que fracassaram. Ainda assim, ela evidencia uma seleção mais ampla em andamento na indústria, na qual capital e usuários se tornam menos tolerantes a projetos incapazes de construir economias sustentáveis.

Essa pressão também aparece entre protocolos que continuam crescendo.

Uma análise recente da Castle Labs avaliou Aave, Aerodrome, Hyperliquid, Pump, Sky e Uniswap, que juntos produziram cerca de US$ 726 milhões em receita no primeiro semestre de 2026. Mas gerar receita e criar valor para o token são duas coisas diferentes. Emissões, desbloqueios, incentivos e mecanismos de distribuição determinam quanto dessa atividade econômica realmente pode ser capturado pelo ativo.

O crescimento de uma rede deixou de ser evidência suficiente para justificar o valor de seu token, o mercado começa a exigir uma ligação econômica mais clara entre as duas coisas.

Uma rede pode crescer sem que seu token cresça com ela

Tokens não são ações.

Possuir um token normalmente não significa ter participação jurídica no protocolo, direito sobre seus lucros ou reivindicação contratual sobre os fluxos de caixa futuros daquele ecossistema.

Durante os grandes ciclos de expansão do mercado, essa diferença era relativamente fácil de ignorar.

Usuários, liquidez, atividade e preços frequentemente cresciam ao mesmo tempo. A valorização do token parecia confirmar o sucesso do protocolo e reforçava a percepção de que os dois representavam essencialmente a mesma aposta.

A separação fica mais evidente quando a atividade da rede continua crescendo sem produzir um benefício econômico equivalente para o ativo.

Um protocolo pode processar bilhões de dólares em transações, cobrar taxas, conquistar usuários e construir um produto relevante. Se essa atividade não cria demanda estrutural pelo token, reduz sua oferta ou transfere alguma forma de valor econômico para seus detentores, o sucesso da aplicação não precisa se transformar em valorização do ativo.

É possível, portanto, construir um protocolo economicamente relevante e manter ao redor dele um token com mecanismos frágeis de captura de valor.

Essa distinção começa a mudar a forma como o mercado avalia projetos.

Gerar receita já não resolve toda a equação

A evolução do DeFi ajuda a mostrar essa mudança.

Durante algum tempo, demonstrar que um protocolo conseguia gerar receita já representava uma diferença importante. Era uma maneira de separar aplicações com atividade econômica real de projetos sustentados principalmente por emissão de tokens e incentivos.

Agora existe uma segunda etapa.

A receita precisa encontrar algum caminho até a economia do token.

A Uniswap oferece um exemplo claro. Depois de anos de discussão sobre o chamado fee switch, sua governança passou a ampliar em 2026 a cobrança de taxas do protocolo e direcioná-las ao TokenJar, estrutura utilizada para comprar e queimar UNI.

Em julho, a governança informou que essas taxas já haviam financiado aproximadamente 7,5 milhões de UNI em queimas, equivalentes a cerca de US$ 25,6 milhões, desde a implementação inicial do modelo.

O número importa menos do que o mecanismo.

A atividade da exchange passou a possuir uma conexão explícita com a oferta do token. Parte das taxas produzidas pelo protocolo financia a retirada de UNI de circulação.

Aave adotou outra versão da mesma lógica.

Sua governança estabeleceu um programa de recompra financiado pela receita do protocolo. Em menos de um ano, mais de 205 mil AAVE haviam sido adquiridos, equivalentes a mais de 1,28% da oferta total, embora o orçamento tenha posteriormente sido recalibrado diante de mudanças na receita e nas necessidades financeiras da DAO.

Nenhum desses mecanismos garante valorização.

O que eles fazem é tornar identificável a ligação entre atividade econômica e token.

Os próprios projetos estão redesenhando essa ligação

Uniswap e Aave fazem parte de um movimento mais amplo.

A NEAR também revisou sua tokenomics em 2026, incorporando mecanismos destinados a utilizar receitas de produtos para recompras de NEAR e outras formas de administração da oferta. O fee switch do NEAR Intents segue a mesma lógica de conectar utilização do produto à economia do ativo.

A mudança é relevante porque amplia o significado de utilidade.

Durante ciclos anteriores, um token podia justificar sua função sendo necessário para governança, staking, pagamento de taxas ou acesso a determinado serviço.

Essas funções continuam importantes, mas não são necessariamente mecanismos de captura de valor.

Um token pode conceder direito de voto sem criar demanda econômica relevante. Pode ser utilizado para pagar taxas enquanto novas emissões aumentam a oferta mais rapidamente do que o uso consegue absorver. Pode oferecer rendimentos de staking financiados principalmente por inflação, distribuindo novos tokens enquanto dilui a participação dos próprios detentores.

Ter uma função dentro do protocolo e acumular valor a partir do crescimento desse protocolo são características diferentes.

A nova geração de tokenomics começa justamente a tentar aproximá-las.

A diluição pode desfazer o valor que o protocolo cria

Existe ainda o outro lado da equação.

Um protocolo pode gerar receita, recomprar tokens e queimar parte da oferta enquanto simultaneamente coloca uma quantidade ainda maior de ativos no mercado.

Por isso, analisar apenas receitas ou recompras pode produzir uma imagem incompleta.

Emissões destinadas a incentivos, desbloqueios de investidores, recompensas e inflação precisam ser consideradas junto aos mecanismos de captura de valor.

A Castle Labs chama atenção justamente para essa diferença. Protocolos podem apresentar receitas significativas e programas de recompra enquanto outros fluxos continuam aumentando a oferta. Quando a diluição supera o valor retirado de circulação ou direcionado aos detentores, a economia líquida do token permanece desfavorável.

Isso introduz uma disciplina diferente na análise.

Não importa apenas quanto valor o protocolo produz, mas quanto desse valor permanece associado ao token depois que todos os demais fluxos são considerados.

Receita, recompras, queimas e demanda precisam ser confrontadas com inflação, incentivos, emissões e desbloqueios.

É nessa diferença que começa a aparecer a economia real do ativo.

Protocolo e token estão se tornando duas análises diferentes

Essa mudança pode alterar profundamente a maneira como projetos cripto são avaliados.

TVL, volume, transações, usuários e receita continuam sendo métricas importantes. Elas mostram se uma rede possui atividade, se o produto encontrou mercado e se existe uma economia funcionando ao redor dele.

Mas essas métricas descrevem principalmente o protocolo.

O token exige uma segunda análise.

Sua economia depende de como a atividade da rede cria demanda pelo ativo, como sua oferta evolui, quais incentivos existem para mantê-lo e quanto do valor produzido pelo ecossistema consegue chegar até ele.

Isso não significa que todo token precise funcionar como uma ação ou distribuir dividendos.

Blockchains possuem necessidades próprias. Segurança, governança, staking e incentivos podem exigir modelos econômicos completamente diferentes daqueles utilizados por empresas tradicionais.

O que se torna mais difícil é justificar valuations elevados apenas porque determinado token está associado a um ecossistema crescente.

Representar uma rede não significa necessariamente capturar seu crescimento.

A próxima seleção será econômica

Os projetos que desapareceram em 2026 são apenas a parte mais visível de uma seleção maior.

O sinal mais interessante pode estar justamente entre aqueles que continuam funcionando.

Uniswap está criando uma ligação entre taxas e queima de UNI. Aave utiliza parte da receita para recomprar AAVE. NEAR procura conectar receitas de produtos à economia de seu token.

Os modelos são diferentes e nenhum deles garante retorno aos investidores. O que compartilham é a necessidade crescente de demonstrar por que a expansão de um protocolo deveria produzir algum efeito econômico sobre o ativo construído ao redor dele.

A indústria passou anos aprendendo a construir redes que funcionam, conquistar usuários e gerar receitas.

Agora os tokens começam a enfrentar um teste diferente.

O crescimento do protocolo continuará sendo importante, mas já não será suficiente por si só. Quanto mais o mercado amadurece, maior tende a ser a distância entre avaliar uma rede e avaliar o ativo associado a ela.

Algumas redes poderão crescer muito enquanto seus tokens capturam pouco desse valor. Outras conseguirão construir mecanismos capazes de aproximar as duas coisas.

Essa diferença pode se tornar uma das principais linhas de seleção do mercado.

A próxima geração de vencedores não precisará apenas provar que suas redes têm valor. Seus tokens precisarão provar que conseguem capturá-lo.