A Kraken está construindo uma exchange que depende cada vez menos de ser uma exchange

A Kraken está construindo uma exchange que depende cada vez menos de ser uma exchange

A economia de uma exchange de criptomoedas foi relativamente simples de entender. Quanto mais investidores negociavam Bitcoin e outros ativos, maior era o volume processado pela plataforma e mais taxas ela conseguia cobrar.

Isso criou negócios extremamente lucrativos durante os grandes ciclos do mercado, mas também profundamente dependentes deles.

A Kraken começa a mostrar como essa relação pode mudar.

A Payward, companhia por trás da exchange, registrou US$ 508 milhões em receita ajustada no segundo trimestre de 2026, alta de 17% em relação ao ano anterior, mesmo com o volume total de transações caindo 13%, para US$ 310 bilhões. O número de contas financiadas avançou 42%, chegando a 6,6 milhões.

O dado mais importante, porém, está na composição do negócio.

Receitas baseadas em ativos e outras fontes já responderam por aproximadamente 60% do total. A atividade de negociação continua importante, mas deixou de explicar sozinha como a companhia ganha dinheiro. 

Ao mesmo tempo, a Kraken está se expandindo para ações tokenizadas, futuros, pagamentos e outros serviços financeiros. A empresa que cresceu oferecendo um lugar para negociar criptomoedas começa a construir uma estrutura econômica capaz de funcionar mesmo quando seus clientes negociam menos cripto.

Isso transforma a diversificação em algo maior do que uma estratégia para encontrar novas receitas, começa a mudar o significado de ser uma exchange.

O trading criou um negócio poderoso e extremamente cíclico

Exchanges possuem uma característica incomum, elas podem ganhar dinheiro quando os preços sobem ou caem. O que realmente importa é que investidores estejam negociando.

Por isso, volatilidade sempre foi uma matéria-prima importante para o setor.

Grandes movimentos de Bitcoin atraem usuários, aumentam volumes e produzem taxas. Quando o mercado perde intensidade, a mesma engrenagem funciona ao contrário.

O problema é que uma empresa não controla quando seus clientes decidem negociar.

Essa dependência ficou novamente visível nos resultados recentes da indústria. Na Coinbase, a receita de transações caiu 21% em relação ao ano anterior no segundo trimestre, para US$ 599 milhões, em meio à desaceleração da atividade no mercado cripto. 

Gemini oferece um exemplo ainda mais extremo. A companhia terminou o trimestre com prejuízo líquido de US$ 107,7 milhões, enquanto sua receita relacionada à exchange sofreu com a forte redução da atividade de negociação. Ao mesmo tempo, receitas fora do trading ajudaram a melhorar parte do desempenho operacional. 

É justamente essa volatilidade econômica que as grandes plataformas estão tentando reduzir, o objetivo não é deixar de ganhar dinheiro com trading, é construir receitas suficientes fora dele para que um período de menor atividade não determine sozinho o desempenho da empresa.

A Kraken começou a ocupar territórios que pertenciam a outras plataformas

A expansão da Kraken deixa essa estratégia bastante clara.

A aquisição da NinjaTrader colocou a companhia diretamente no mercado americano de futuros e trouxe uma licença que permite oferecer produtos regulados de derivativos nos Estados Unidos. Quando anunciou o negócio de US$ 1,5 bilhão, a própria Kraken afirmou que a aquisição aceleraria suas ambições em múltiplas classes de ativos, incluindo ações e pagamentos. 

A empresa também avançou sobre ações tokenizadas.

Os xStocks já passaram de 100 ações e ETFs americanos representados on-chain, incluindo Apple, Tesla e Nvidia. Desde o lançamento em 2025, esses ativos ultrapassaram US$ 25 bilhões em volume acumulado, e a meta anunciada é superar 500 ativos até o fim de 2026. 

A fronteira continua avançando.

A Kraken já permite, em mercados elegíveis, negociar futuros perpétuos baseados em ações tokenizadas durante 24 horas por dia e utilizar margem sobre determinados xStocks. 

O resultado é uma plataforma na qual a infraestrutura originalmente construída para Bitcoin e outros criptoativos começa a servir também para ações, ETFs e futuros.

Não é uma saída de cripto, é uma expansão da infraestrutura cripto para outros mercados financeiros.

A palavra exchange começa a explicar menos do negócio

Existe uma diferença importante entre adicionar produtos e mudar o modelo econômico de uma companhia.

Exchanges adicionam serviços há anos. Staking, custódia e produtos institucionais não são novidades.

O que torna o momento atual diferente é a escala da diversificação e a tentativa de reunir mercados que historicamente existiam em plataformas separadas.

A Kraken não precisa mais disputar apenas com outras exchanges pelo investidor que quer comprar Bitcoin.

Ao oferecer futuros tradicionais, ações tokenizadas, derivativos e outros serviços financeiros, começa também a disputar partes da relação que esse mesmo cliente mantinha com corretoras e outras plataformas.

Isso muda o tamanho do mercado que a empresa pode atender, mas também muda a origem potencial de suas receitas.

Cada atividade adicional reduz, ainda que parcialmente, a dependência de uma única variável: quanto cripto está sendo negociado naquele momento.

O resultado do segundo trimestre oferece uma primeira demonstração clara dessa dinâmica. O volume caiu, mas a receita continuou crescendo.

Para uma companhia que nasceu de trading, essa divergência é particularmente importante.

A Coinbase está tentando resolver o mesmo problema

A Kraken não está sozinha nessa transformação.

A Coinbase definiu como uma de suas prioridades para 2026 construir uma “Everything Exchange”, reunindo cripto, ações, prediction markets, commodities e câmbio em uma única plataforma. 

Os números ajudam a explicar por quê.

No primeiro trimestre, assinaturas e serviços já representavam 44% da receita líquida da Coinbase. Stablecoins, staking, juros e assinaturas funcionaram como um amortecedor em um período no qual os volumes gerais do mercado cripto caíram mais de 20%. 

Ao mesmo tempo, novas categorias começaram a produzir receitas próprias. Derivativos de varejo ultrapassaram uma taxa anualizada de US$ 200 milhões em receita, enquanto prediction markets superaram US$ 100 milhões anualizados em março. 

Kraken e Coinbase estão chegando ao mesmo problema por caminhos diferentes.

As duas construíram enormes bases de usuários ao redor de cripto, agora tentam utilizar essas bases para vender uma quantidade cada vez maior de serviços que antes exigiriam outras plataformas.

A exchange deixa de ser o destino de uma operação específica e tenta se tornar a infraestrutura financeira permanente do cliente.

A competição também começa a mudar

Essa transformação altera quem são os concorrentes naturais dessas empresas.

Quando o principal produto de uma exchange era negociação de criptomoedas, sua competição era relativamente fácil de identificar.

Kraken disputava clientes com Coinbase, Gemini, Binance e outras plataformas cripto.

À medida que as fronteiras se expandem, essa divisão fica menos clara.

Uma plataforma que oferece cripto, ações, futuros, pagamentos e outros produtos financeiros começa a entrar em mercados ocupados por corretoras e empresas financeiras tradicionais.

O movimento também acontece na direção contrária.

Corretoras tradicionais adicionaram negociação de cripto, enquanto empresas originalmente construídas ao redor de ativos digitais adicionam produtos de Wall Street.

As duas indústrias começam a avançar sobre o mesmo território.

Isso não significa que exchanges estejam se transformando em bancos ou que corretoras tradicionais deixarão de existir. As estruturas regulatórias, modelos de negócio e produtos continuam diferentes.

Mas a fronteira que separava uma plataforma cripto de uma plataforma financeira está ficando menos evidente.

A próxima exchange pode ganhar mais quando seus clientes fazem mais do que negociar

A Kraken continua sendo uma exchange e o trading continuará sendo uma parte importante de seu negócio, o que está mudando é a dependência econômica dessa atividade.

A companhia pode ganhar com negociação de Bitcoin, mas também começa a construir receitas em torno de outros ativos, produtos e serviços. Quanto mais essa estrutura cresce, menor precisa ser a relação direta entre volatilidade cripto e desempenho financeiro.

O segundo trimestre oferece um sinal dessa mudança.

A Payward conseguiu aumentar receita enquanto o volume total de transações diminuía. Isso não prova que a dependência do ciclo cripto desapareceu, mas mostra que outras partes do negócio já conseguem compensar parte da fraqueza da atividade de negociação. 

O principal desafio das exchanges foi conquistar usuários suficientes para criar mercados líquidos de criptomoedas, agora as maiores já possuem milhões deles.

O próximo passo é descobrir quantas relações financeiras conseguem construir ao redor dessa base.

Se a estratégia funcionar, Kraken continuará permitindo que alguém compre e venda Bitcoin, mas cada vez menos de seu futuro dependerá de esse ser o único motivo para abrir a plataforma.

E é justamente aí que a aparente contradição do modelo começa a fazer sentido: quanto mais serviços financeiros a Kraken consegue construir ao redor de sua exchange, menos precisa depender da atividade que originalmente fez dela uma exchange.