Stablecoins ganham espaço nos pagamentos internacionais e desafiam bancos tradicionais

Stablecoins ganham espaço nos pagamentos internacionais e desafiam bancos tradicionais

Stablecoins estão ganhando espaço nos pagamentos internacionais ao oferecer uma alternativa à infraestrutura bancária tradicional. Para empresas que operam globalmente, a promessa é reduzir atrasos, intermediários e etapas de reconciliação em transferências entre países.

A mudança acontece em um momento em que softwares corporativos já funcionam de forma praticamente contínua. Sistemas automatizados conseguem analisar operações, verificar contratos e iniciar pagamentos em segundos, enquanto a liquidação financeira ainda pode depender de horários bancários e processos que levam dias.

Essa diferença cria um problema operacional. Uma empresa pode automatizar a decisão de movimentar capital, mas continua dependendo de uma infraestrutura financeira que não acompanha a mesma velocidade.

Por que stablecoins estão sendo usadas em pagamentos internacionais?

O problema começa na própria estrutura dos pagamentos internacionais tradicionais. Em vez de movimentar o dinheiro diretamente, os sistemas bancários costumam transmitir instruções entre diferentes bancos, redes de compensação e instituições correspondentes.

Cada etapa pode exigir reconciliação de registros, verificações de compliance, diferentes horários de operação e novas estruturas de tarifas. Quanto mais intermediários participam do processo, maior pode ser a complexidade para concluir a transferência.

Um pagamento internacional iniciado na sexta-feira à tarde, por exemplo, pode levar vários dias úteis para ser efetivamente liquidado no banco de destino.

Para empresas que movimentam grandes volumes, esse intervalo também significa capital parado durante o processo. O dinheiro permanece em trânsito em vez de estar disponível para novas operações.

As stablecoins entram nesse cenário como uma forma de utilizar redes digitais para movimentar ativos vinculados a moedas tradicionais. Em mercados onde transferências internacionais são especialmente lentas ou caras, isso pode representar uma mudança relevante na forma como empresas administram seus pagamentos.

Outro desafio está na fragmentação das próprias redes blockchain. A mesma stablecoin pode existir em diferentes blockchains, mas cada rede mantém seu próprio registro. Mover capital entre elas pode envolver custos, atrasos e riscos operacionais adicionais.

Por isso, a questão não é apenas escolher uma stablecoin. Para empresas, também importa como negociação, custódia e liquidação estão conectadas.

Stablecoins avançam em mercados emergentes

A mudança é particularmente relevante em regiões onde empresas enfrentam dificuldades para acessar moedas fortes, lidar com desvalorizações cambiais ou realizar pagamentos internacionais por meio do sistema bancário tradicional.

Em corredores de liquidez da América Latina e da África Subsaariana, a conversão da moeda local pode aumentar custos e atrasar pagamentos a fornecedores. Durante esse intervalo, as empresas também ficam expostas à variação cambial.

Nesse contexto, algumas empresas passaram a utilizar stablecoins lastreadas em reservas para realizar liquidações internacionais com maior velocidade.

A lógica é diferente daquela associada ao uso especulativo de criptomoedas. Nesses casos, stablecoins são tratadas como uma infraestrutura de pagamento e liquidação, especialmente para operações empresariais.

A possibilidade de liquidação em tempo real também pode ajudar empresas a movimentar capital de giro com mais frequência, em vez de mantê-lo comprometido durante ciclos bancários de vários dias.

Regulação também entra na arquitetura

A expansão dos pagamentos com stablecoins traz outro desafio: as regras variam de uma jurisdição para outra.

Uma stablecoin autorizada dentro de determinado regime regulatório pode estar sujeita a exigências diferentes quando utilizada em outro país. Para empresas que operam internacionalmente, isso transforma compliance em parte da própria arquitetura financeira.

Iniciativas como o DAC8, da União Europeia, e o Crypto-Asset Reporting Framework (CARF), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), também aumentam a importância de mecanismos de auditoria, verificação e reporte integrados à infraestrutura de pagamentos.

Nesse cenário, a escolha da jurisdição pode afetar relações bancárias, padrões de segregação de ativos e obrigações de supervisão. Para empresas que pretendem operar em diferentes mercados, esses fatores precisam ser considerados desde o desenho da infraestrutura.

O movimento ajuda a explicar por que stablecoins estão deixando de ser apenas um instrumento associado ao mercado cripto e passando a ser consideradas também dentro da discussão sobre infraestrutura financeira.

A tendência descrita no artigo de referência é de uma migração gradual de operações de tesouraria e pagamentos empresariais para trilhos digitais, principalmente quando a infraestrutura bancária tradicional não consegue acompanhar a velocidade das operações automatizadas.