Uma nova análise da empresa de cibersegurança blockchain Hacken levantou questões importantes sobre a segurança do USDT. Cerca de US$ 91,3 bilhões da stablecoin emitidos na rede Tron, o equivalente a metade da oferta em circulação, estão sob um contrato administrativo que pode ser controlado por qualquer pessoa que detenha apenas duas chaves de assinatura.
O problema central está na arquitetura do código. Segundo o levantamento, não existe um atraso programado, janela de cancelamento ou qualquer método embutido para reverter mudanças caso essas duas chaves sejam comprometidas em um ataque.
O sistema de assinaturas múltiplas não guarda os fundos dos usuários de forma direta, mas controla as regras do contrato inteligente. Na prática, invasores com acesso a essas chaves poderiam emitir novos tokens, congelar endereços e reatribuir a propriedade da rede sem precisar tocar nas carteiras individuais dos investidores.
“Não há atraso embutido, processo de cancelamento ou maneira confiável de desfazer as alterações”, explicou Seher Saylık, auditora de contratos inteligentes da Hacken. Ela ressalta que um invasor poderia primeiro mudar o dono do contrato, bloqueando permanentemente os assinantes legítimos da Tether.
O risco também se estende para outros ecossistemas cripto. A Hacken apontou que a Tether reutiliza as mesmas seis chaves de assinatura em redes como Ethereum, Avalanche e Celo. Um vazamento de chaves em redes secundárias poderia ser usado para autorizar transações administrativas críticas no Ethereum.
Como a auditoria financeira impacta a segurança do USDT?
Apesar dos alertas sobre o código, a agência de classificação Bluechip elevou a nota corporativa da Tether de D para C. A mudança ocorreu após uma auditoria financeira da KPMG US confirmar que as reservas da empresa superavam seus passivos em US$ 6,8 bilhões no final de dezembro de 2025.
A Bluechip implementou uma nova metodologia que combina o balanço financeiro tradicional com a revisão de segurança Web3 feita pela Hacken. Benjamin Levit, CEO da Bluechip, afirmou que a integração de dados técnicos permite avaliar o cenário completo das stablecoins, destacando que a revisão não encontrou evidências de chaves vazadas até o momento.
Contudo, especialistas do setor alertam que a estabilidade financeira não anula os riscos na blockchain. Leo Fan, CEO da Cysic.xyz, pontuou que “a auditoria da KPMG e o novo sistema de pontuação mudaram o cenário a favor da Tether, mas a arquitetura não”.
Para os investidores, a segurança do USDT permanece como um ponto de atenção, pois o código atual não exige uma prova de reserva automatizada (proof-of-reserve). Isso significa que, se as chaves autorizarem, o contrato pode emitir qualquer quantidade de ativos sem exigir a comprovação de novos depósitos bancários.
As divergências sobre a saúde da stablecoin também continuam no mercado tradicional. Em novembro, a S&P Global Ratings rebaixou o USDT para a pior pontuação de sua escala devido a falhas na divulgação de reservas, decisão que foi fortemente contestada pela Tether.


