A promessa inicial das stablecoins parecia simples: contornar o sistema financeiro tradicional. No entanto, a realidade do mercado corporativo mostra exatamente o oposto. As empresas que estão escalando o uso institucional de criptomoedas constroem conexões cada vez mais profundas com a infraestrutura bancária.
Movimentações recentes de grandes players confirmam essa tendência de mercado. A Stripe desembolsou US$ 1,1 bilhão pela Bridge, uma empresa focada em orquestrar serviços bancários. Ao mesmo tempo, o Citi prepara sua custódia de criptoativos e o Standard Chartered testa liquidações financeiras em Singapura.
Toda transferência corporativa internacional possui três etapas. O dinheiro sai na moeda local, passa pela fronteira e chega ao destino também em moeda fiduciária. O sistema da blockchain entra apenas na etapa intermediária, resolvendo a lentidão e as taxas do modelo SWIFT tradicional.
Apesar do crescimento, o volume real ainda é pequeno se comparado ao mercado financeiro global. O setor de remessas transfronteiriças alcançou US$ 208 trilhões em 2025. Enquanto isso, os pagamentos com stablecoins genuínos movimentaram cerca de US$ 390 bilhões anuais no mesmo período, representando apenas 0,02% do total.
Para processar volumes na casa dos bilhões, as empresas do setor precisam de muito mais do que boa tecnologia. O acesso aos trilhos de pagamento locais, como o Pix no Brasil que movimentou R$ 35 trilhões em 2025, e a conversão cambial em múltiplas moedas tornam-se requisitos obrigatórios.
O risco e a regulação nos pagamentos com stablecoins
Depender de apenas uma instituição financeira é hoje o maior risco operacional para negócios baseados em criptomoedas. Históricos de encerramentos repentinos, como os casos do Silvergate e Signature Bank, mostram que a falta de opções bancárias paralisa operações inteiras.
A pressão regulatória também fortalece a necessidade de parcerias robustas e bem estabelecidas. O GENIUS Act, assinado nos Estados Unidos em julho de 2025, exige padrões bancários rigorosos para reservas e emissão de ativos, empurrando as empresas institucionais para dentro das regras de compliance.
Mesmo com as barreiras estruturais, os pagamentos com stablecoins no modelo B2B atingiram US$ 226 bilhões anualizados no fim de 2025, um salto de 733% em um ano. Esse avanço impressionante ocorreu justamente nas empresas que priorizaram a construção de uma base bancária sólida.
Segundo Bernardo Brites, CEO da Trace Finance, a velocidade e a programabilidade das transações em blockchain entregam valor real ao mercado corporativo. Contudo, essas vantagens tecnológicas só funcionam na prática quando estão perfeitamente conectadas e amparadas pelo sistema financeiro tradicional.


