A governança da Hyperliquid voltou ao centro das discussões após uma auditoria detalhada mostrar que muitas das críticas mais conhecidas sobre a descentralização da rede já não refletem sua estrutura atual. Ao mesmo tempo, o levantamento conclui que ainda existem limitações importantes, principalmente relacionadas ao código fechado e à concentração de poder.
Hoje, a Hyperliquid é a maior plataforma de contratos futuros perpétuos on-chain, movimentando mais de US$ 200 bilhões por mês e respondendo por cerca de 70% do volume desse mercado. Apesar da escala, toda a infraestrutura da rede depende de apenas 27 validadores.
Quando o protocolo foi lançado, todos esses validadores eram operados pela própria fundação. Desde então, a rede passou por uma expansão gradual e abriu espaço para operadores independentes, alterando significativamente a distribuição do stake.
Segundo a auditoria, após uma série de redelegações realizadas em junho de 2026, a fundação passou a controlar aproximadamente 49,3% dos HYPE em stake, enquanto os outros 50,7% ficaram distribuídos entre 22 operadores independentes. O percentual representa uma redução relevante em comparação aos cerca de 81% registrados no início de 2025, número que ainda costuma ser citado em críticas ao projeto.
O que ainda preocupa na governança da Hyperliquid
Embora a distribuição de stake tenha melhorado, a auditoria afirma que os principais questionamentos sobre a governança da Hyperliquid não desapareceram.
Um dos pontos mais debatidos envolve a possibilidade de “prender” (jail) validadores. A documentação oficial indica que essa punição ocorre por votação entre os próprios validadores em casos de problemas de desempenho e disponibilidade da rede, e não por decisão unilateral da fundação.
Ainda assim, como a fundação mantém quase metade do stake, sua influência nesse tipo de decisão continua significativa.
Outro aspecto analisado foi a obrigatoriedade de atualizações do software da rede. Na prática, validadores que deixam de instalar novas versões acabam ficando fora do consenso da blockchain, algo considerado comum em redes que utilizam apenas um cliente de software.
O ponto considerado mais sensível pela auditoria é que esse cliente continua sendo de código fechado. A fundação afirma desde 2025 que pretende abrir o código quando o software atingir um estágio considerado estável, mas isso ainda não aconteceu.
Como consequência, operadores e desenvolvedores externos não conseguem verificar integralmente como funciona o programa responsável por validar a rede.
A auditoria também relembra o episódio envolvendo o token JELLY, em março de 2025. Na ocasião, após uma tentativa de manipulação de mercado que ameaçava gerar prejuízos ao cofre de liquidez do protocolo, os validadores votaram pelo encerramento do mercado e pela liquidação das posições em um preço definido pela rede.
O caso mostrou que a governança da Hyperliquid possui mecanismos para intervir em situações consideradas excepcionais. Para defensores da plataforma, a medida evitou perdas maiores aos usuários. Já críticos argumentam que o episódio demonstrou que decisões capazes de alterar mercados podem ser tomadas por um grupo relativamente pequeno de participantes.
Outro ponto destacado é o tamanho reduzido do conjunto de validadores. Enquanto Ethereum possui centenas de milhares de validadores e Solana conta com cerca de 1.800, a Hyperliquid opera com apenas 27.
Segundo a auditoria, essa escolha faz parte do desenho da rede para oferecer liquidação quase instantânea e desempenho comparável ao de exchanges centralizadas, mas aumenta a concentração de influência.
Além das questões técnicas, o relatório lembra que, em junho deste ano, a Autoridade Monetária de Singapura (MAS) incluiu a Hyperliquid em sua Investor Alert List. A inclusão não representa uma sanção nem uma acusação de irregularidade, mas reforçou o debate sobre até que ponto a plataforma pode ser considerada verdadeiramente permissionless diante da influência exercida pela fundação.
A auditoria conclui que a descentralização da Hyperliquid avançou de forma mensurável desde o lançamento da rede. No entanto, afirma que fatores como a elevada concentração de stake, o software ainda fechado e o pequeno número de validadores continuam sendo os principais elementos que devem ser acompanhados à medida que o protocolo cresce.




