O euro digital terá o maior nível de privacidade permitido pela tecnologia atual, segundo Piero Cipollone, membro do conselho executivo do Banco Central Europeu (BCE).
Em entrevista ao veículo italiano ilsussidiario.net, realizada em 10 de agosto e divulgada pelo BCE nesta segunda-feira, Cipollone afirmou que o Eurosistema não conseguiria identificar quem envia ou recebe pagamentos feitos com a moeda digital.
A diferença estaria entre os pagamentos online e offline. No modo offline, as transações ocorreriam diretamente entre as pessoas, e as informações ficariam disponíveis apenas para quem paga e quem recebe.
Nos pagamentos online, o Eurosistema também não teria acesso à identidade dos envolvidos. Essa informação continuaria disponível para os bancos responsáveis pelas transações, que já possuem obrigações relacionadas à identificação de clientes e ao combate à lavagem de dinheiro.
“O euro digital garante o máximo nível de privacidade que a tecnologia atual pode oferecer”, afirmou Cipollone.
Como funcionará a privacidade do euro digital
Embora o euro digital tenha recursos de privacidade incorporados ao seu desenho, isso não significa que os bancos deixarão de acompanhar as transações dentro das regras atuais.
As instituições financeiras que distribuírem a moeda continuarão responsáveis por identificar seus clientes e cumprir as obrigações de prevenção à lavagem de dinheiro. A diferença é que o Eurosistema, responsável pela infraestrutura da moeda digital, não teria acesso à identidade de quem realiza cada pagamento.
O projeto europeu também prevê pagamentos offline, nos quais os detalhes da operação ficariam restritos às duas partes envolvidas. A proposta busca reproduzir, no ambiente digital, parte da privacidade associada aos pagamentos diretos.
O desenvolvimento do euro digital avança enquanto as instituições europeias ainda negociam as regras para sua implementação.
O Parlamento Europeu aprovou sua posição para as negociações sobre a regulamentação em julho. A expectativa é que um acordo com os países-membros seja alcançado até o fim de 2026.
O BCE também selecionou 36 provedores de serviços de pagamento, incluindo Deutsche Bank, UniCredit e Revolut, para participar de um piloto de 12 meses a partir do segundo semestre de 2027.
A primeira emissão do euro digital está prevista para 2029.
Euro digital e a diferença para os EUA
A discussão sobre privacidade coloca Europa e Estados Unidos em posições diferentes quando o assunto é moeda digital de banco central, ou CBDC.
Em julho, os EUA aprovaram uma legislação que impede o Federal Reserve de emitir uma CBDC até o fim de 2030. Depois desse período, uma eventual emissão dependeria de autorização explícita do Congresso.
A lei, aprovada pelo Senado por 85 votos a 5 em junho, entrou em vigor em 11 de julho sem a assinatura do presidente Donald Trump.
A legislação, porém, não impede a circulação de moedas digitais denominadas em dólar que sejam abertas, sem permissão e privadas. Com isso, emissores de stablecoins regulados pela legislação GENIUS Act, aprovada no ano anterior, permanecem fora da proibição.
Para Cipollone, essa alternativa também apresenta riscos para o sistema financeiro europeu. Em julho, o executivo do BCE afirmou que uma expansão das stablecoins poderia retirar depósitos de varejo dos bancos europeus, além de ampliar a perda de taxas e dados de transações para plataformas de pagamentos móveis.
A discussão, portanto, não envolve apenas privacidade. O avanço do euro digital também está ligado à forma como os bancos europeus, as stablecoins e as plataformas privadas de pagamentos disputarão espaço no sistema financeiro nos próximos anos.


