O Cardano já é usado como uma camada pública de verificação para registros de cadeias de suprimentos. A Cardano Foundation e a empresa brasileira de tecnologia Blockforce anunciaram em 31 de agosto que a solução já ultrapassou 500 mil registros processados.
A estrutura está em operação com grandes empresas brasileiras do setor de moda, incluindo a Azzas 2154. O objetivo é permitir que documentos comerciais permaneçam em uma rede restrita, enquanto provas criptográficas associadas a esses registros são registradas na blockchain pública do Cardano.
O modelo funciona com dois ambientes separados. As informações detalhadas de cada etapa da cadeia de suprimentos ficam em uma rede permissionada, acessível apenas às empresas, fornecedores e demais participantes autorizados.
Depois, a plataforma gera uma prova criptográfica correspondente a cada registro e publica essa prova na blockchain do Cardano. Com isso, um auditor ou regulador pode comparar um documento recebido com a prova pública e verificar se aquele registro foi alterado desde seu registro.
Essa arquitetura tenta resolver um dos principais obstáculos para o uso de blockchains públicas por empresas: a necessidade de auditoria sem expor informações comerciais sensíveis.
Dados como identidade de fornecedores, preços e contratos podem continuar fora da blockchain pública. O Cardano, nesse caso, funciona como uma camada independente para verificar a existência e a integridade posterior do registro.
É importante, porém, separar integridade de informação de veracidade. A prova registrada na blockchain não confirma que o dado original estava correto. A qualidade das informações ainda depende dos documentos de origem, dos processos de validação e das empresas que participam da operação.
Cardano entra na rastreabilidade do couro
A Azzas 2154 está usando a solução em sua cadeia de fornecimento de couro. Segundo as empresas, o sistema reúne documentos fiscais, informações de fornecedores e bases públicas oficiais para construir um histórico que possa ser auditado.
O grupo estabeleceu como meta rastrear 100% do couro utilizado por suas marcas até 2030. Esse percentual é um objetivo futuro da companhia, e não um resultado já concluído.
A movimentação também ocorre em um momento de maior pressão por rastreabilidade na indústria. Na União Europeia, o Ecodesign for Sustainable Products Regulation está criando Passaportes Digitais de Produtos para categorias prioritárias, incluindo produtos têxteis e de vestuário.
A Comissão Europeia espera que esses passaportes concentrem informações sobre características ambientais e de sustentabilidade dos produtos. O sistema desenvolvido pela Blockforce e pelo Cardano pode ser usado para verificar registros, mas as empresas não afirmaram que a tecnologia, por si só, garante conformidade com uma regulamentação específica.
Outro ponto relevante está no custo de registrar grandes volumes de informações em uma blockchain pública. Segundo Cardano Foundation e Blockforce, o uso de agrupamento de certificados reduziu em 92% o custo de ancoragem por registro.
Em vez de enviar uma transação separada para cada evento da cadeia de suprimentos, a arquitetura combina múltiplos registros antes de publicá-los no Cardano. A solução utiliza o sistema uVerify, da Blockforce, com parâmetros ajustáveis de agrupamento.
A redução de 92% foi informada pelas próprias empresas responsáveis pelo projeto. O anúncio não apresentou uma auditoria independente nem detalhou os custos original e final por certificado ou as condições utilizadas na comparação.
Mesmo com essa ressalva, os mais de 500 mil registros indicam que a iniciativa já ultrapassou a fase de um teste pequeno. A aplicação representa um exemplo de como empresas podem manter dados comerciais em uma infraestrutura restrita e usar uma blockchain pública para criar uma camada adicional de verificação.
Contratos preveem 6,5 milhões de registros até 2030
Os contratos assinados entre as empresas cobrem 6,5 milhões de registros certificados até 2030. Esse número, porém, representa atividade futura contratada e não registros já processados.
O próximo passo será ampliar a utilização da arquitetura. A Blockforce afirmou que pretende levar o modelo para setores como indústria automotiva, agronegócio, farmacêutico e cosméticos, embora não tenham sido divulgados novos clientes ou datas para essas implementações.
A expansão também dependerá da integração dos sistemas usados pelas empresas e da consistência dos documentos que alimentam a rede permissionada.
Para auditorias e órgãos reguladores, será igualmente necessário contar com ferramentas adequadas para localizar os registros e compará-los com as provas públicas armazenadas no Cardano.
A partir desse ponto, métricas como transações públicas, custos por registro, capacidade de processamento e auditorias independentes poderão ajudar a medir como a solução se comporta em uma escala maior.
Por enquanto, o principal marco divulgado é o volume superior a 500 mil registros. O próximo indicador relevante será a evolução desse número em direção aos 6,5 milhões previstos nos contratos até 2030.


