A KPMG chancela os bilhões da Tether mas esquece de mostrar o saldo

A KPMG chancela os bilhões da Tether mas esquece de mostrar o saldo

A emissora da maior stablecoin do mercado cripto alcançou um marco aguardado pelo setor. A primeira auditoria da Tether foi concluída pela KPMG, que emitiu uma opinião sem ressalvas sobre as demonstrações financeiras da filial de El Salvador referentes ao ano de 2025. Esse é o veredito mais limpo que uma empresa pode receber de um auditor independente.

No entanto, o escopo da avaliação é mais restrito do que o anúncio inicial sugere. A KPMG analisou apenas uma entidade legal específica sob as normas contábeis americanas (U.S. GAAP). Até o momento, a empresa não publicou as demonstrações financeiras nem a carta de opinião resultante do processo.

Os dados auditados apontam que as reservas do USDT superaram os passivos em US$ 6,814 bilhões no final de 2025. Esse montante é US$ 476 milhões superior ao reportado anteriormente nas atestações trimestrais da BDO. A discrepância ocorre porque a BDO utilizava princípios de medição IFRS, enquanto a KPMG aplicou o padrão U.S. GAAP.

O impacto da auditoria da Tether frente às novas regras nos EUA

Durante a análise, a KPMG inspecionou e contou fisicamente cada barra de ouro mantida nas reservas, deixando de lado a dependência de relatórios gerados por custodiantes. O diretor financeiro da companhia, Simon McWilliams, afirmou que a empresa submeteu as demonstrações “ao escrutínio de uma auditoria das Big Four”, confirmando a qualidade das atestações públicas anteriores.

O CEO da empresa celebrou o resultado frente às críticas do mercado. “Durante anos, alguns detratores disseram que uma auditoria da Tether não poderia ser concluída”, declarou Paolo Ardoino. “Eles disseram que a empresa se recusava a se submeter ao escrutínio mais rigoroso. Nós provamos que eles estavam errados mais uma vez.”

Apesar da chancela técnica, a auditoria da Tether seguiu os padrões AICPA. Esse formato difere das exigências da nova legislação americana, o GENIUS Act, que demanda avaliações sob o padrão PCAOB para emissores de stablecoins com mais de US$ 50 bilhões em circulação. A concorrente Circle, responsável pela USDC, já utiliza o formato exigido pelos Estados Unidos desde 2023.

Como a Tether International opera sob registro em El Salvador, a atual auditoria tem caráter voluntário. A partir de 2028, a lei dos EUA exigirá que emissores estrangeiros comprovem que seus reguladores locais possuem estruturas comparáveis às regras americanas para continuar operando no país.

No cenário mais recente, a folga no patrimônio da emissora diminuiu. O relatório de junho de 2026 mostrou uma queda no patrimônio líquido para US$ 4,11 bilhões, enquanto o total de ativos em ouro subiu.

Além disso, a agência S&P Global Ratings reduziu a nota do USDT para o nível mais fraco em sua escala de estabilidade no final do ano anterior, citando o volume de ativos de risco nas reservas.

Em resposta ao rebaixamento de crédito, Ardoino criticou a agência, chamando o movimento de “máquina de propaganda das finanças tradicionais”. Mesmo afirmando que a estabilidade do ativo agora possui uma assinatura formal da KPMG, a empresa não confirmou se pretende publicar os documentos detalhados para o público geral.