A Solana Foundation lançou uma infraestrutura capaz de fazer em segundos uma etapa que no mercado americano de ações normalmente termina no dia seguinte.

O Solana DvP é um programa open-source criado para delivery versus payment, ou entrega contra pagamento. Em uma negociação, o ativo do vendedor e o pagamento do comprador são colocados separadamente em escrow. Quando ambos estão disponíveis, uma autoridade de liquidação executa as duas transferências atomicamente na mesma transação. Ou as duas acontecem, ou nenhuma acontece.

O J.P. Morgan contribuiu com informações sobre práticas e requisitos de liquidação institucional durante o desenvolvimento do programa. A proposta é levar para uma blockchain pública uma das funções fundamentais da infraestrutura do mercado de capitais.

A velocidade chama atenção, o desenho econômico por trás dela é ainda mais interessante.

O Solana DvP liquida cada negociação bilateralmente e não realiza netting, processo utilizado pelo mercado tradicional para compensar obrigações antes que dinheiro e ativos precisem efetivamente ser movimentados. A documentação também deixa financiamento fora do programa.

Isso cria uma troca, a blockchain pode reduzir drasticamente o tempo entre negociação e liquidação e eliminar o risco de uma parte entregar enquanto a outra não entrega.

Mas fazer tudo imediatamente também significa abrir mão, dentro dessa camada, de mecanismos que Wall Street utiliza justamente para evitar movimentar o valor bruto de todas as operações.

Wall Street não movimenta todo o dinheiro que negocia

Imagine que uma instituição precise pagar US$ 100 milhões para outra ao mesmo tempo em que tem US$ 90 milhões para receber dela.

Liquidar as duas operações individualmente exigiria movimentar US$ 190 milhões.

Depois de compensá-las, a diferença econômica é de apenas US$ 10 milhões.

Essa simplificação ajuda a entender a importância do netting.

Nos Estados Unidos, a National Securities Clearing Corporation, controlada pela DTCC, coloca-se entre compradores e vendedores e consolida milhões de operações antes da liquidação.

Segundo a DTCC, o netting multilateral reduz em média 98% das obrigações de pagamento que precisam ser efetivamente liquidadas no mercado americano de ações. Em 2025, sua infraestrutura processou US$ 608 trilhões em transações de equities.

Isso significa que a aparente lentidão do sistema tradicional não pode ser analisada apenas como uma limitação tecnológica.

Parte da infraestrutura existente foi construída para permitir que um volume gigantesco de negociações resulte em uma quantidade muito menor de dinheiro e ativos que realmente precisam mudar de mãos.

O tempo cria riscos, mas também permite compensar obrigações.

A Solana escolheu outro lado dessa equação

O Solana DvP funciona de maneira diferente.

Cada registro representa uma negociação bilateral. O programa não faz matching, não possui livro de ofertas, não realiza netting e não permite liquidação parcial. Os termos são acordados fora do programa e os dois lados depositam os ativos necessários em contas de escrow.

Somente depois que as duas pernas estão suficientemente financiadas a autoridade de liquidação pode concluir a operação.

A vantagem é clara.

O comprador não corre o risco de entregar o dinheiro e ficar esperando pelo ativo. O vendedor não entrega o ativo sem receber o pagamento correspondente. A atomicidade garante que as duas transferências aconteçam juntas.

Esse é o chamado risco de principal, um dos problemas centrais que sistemas DvP foram criados para controlar.

A blockchain comprime o intervalo, mas a liquidez necessária para chegar àquele momento precisa existir em algum lugar.

O programa não fornece crédito para o comprador, não financia a operação e não compensa diferentes obrigações entre instituições. Essas funções precisam existir fora dele caso sejam necessárias.

Portanto, liquidação instantânea não significa automaticamente eficiência de capital.

Ela troca parte da complexidade temporal do sistema por uma exigência maior de disponibilidade imediata dos ativos envolvidos em cada negociação.

Liquidação bruta e líquida resolvem problemas diferentes

Essa tensão não nasceu com blockchain.

O Bank for International Settlements distingue há décadas diferentes modelos de DvP.

Em um deles, ativo e dinheiro são liquidados operação por operação em base bruta. Em outros, uma ou ambas as pernas podem ser compensadas antes da liquidação final.

Existe uma troca conhecida entre esses modelos.

Liquidar cada operação imediatamente reduz o período durante o qual existe exposição entre as partes. Em contrapartida, sistemas de liquidação bruta normalmente exigem mais liquidez porque pagamentos não podem ser compensados uns contra os outros antes de acontecerem.

O próprio BIS já apontou que a tokenização tende a favorecer modelos em que operações são liquidadas individualmente e que isso, em geral, aumenta as necessidades de liquidez.

Por isso, comparar blockchain com o sistema tradicional apenas pela velocidade pode produzir uma conclusão incompleta.

Um sistema pode liquidar mais rápido e exigir mais capital disponível, outro pode esperar mais tempo e utilizar esse intervalo para reduzir quanto precisa efetivamente ser liquidado.

A pergunta relevante não é qual cronômetro termina primeiro, é qual combinação de velocidade, risco e utilização de capital produz a infraestrutura mais eficiente.

T+1 também está ficando mais rápido

O mercado tradicional também vem encurtando essa espera.

Os Estados Unidos passaram de T+2 para T+1 em 2024, fazendo com que a maioria das negociações de valores mobiliários seja liquidada no dia útil seguinte.

A redução trouxe benefícios mensuráveis. Nos primeiros meses após a migração, o valor mantido no fundo de clearing da NSCC caiu de US$ 12,8 bilhões para US$ 9,2 bilhões — cerca de US$ 3,6 bilhões liberados — enquanto as falhas de liquidação diminuíram.

Isso mostra que velocidade também libera capital.

Quanto menos tempo uma operação permanece aberta, menor tende a ser a exposição que precisa ser protegida com margem e outros recursos.

Mas existe um ponto em que acelerar deixa de ser simplesmente uma versão melhor do mesmo sistema.

A própria DTCC já alertou que passar de T+1 para T+0 é uma mudança muito maior porque pode eliminar benefícios do netting e criar novas ineficiências de capital se a arquitetura não for redesenhada.

É justamente nessa fronteira que a proposta da Solana entra.

A próxima inovação pode estar entre os dois modelos

Nada impede que mercados on-chain desenvolvam mecanismos de crédito, compensação ou otimização de liquidez ao redor de liquidação atômica.

O Solana DvP também não pretende resolver sozinho toda a infraestrutura pós-negociação. Sua documentação é explícita ao delimitar o que o programa faz e o que permanece fora dele.

Isso é importante porque evita uma conclusão errada.

A ausência de netting não significa que blockchain seja incompatível com netting. Significa que esta camada específica não oferece essa função.

E talvez seja justamente aí que esteja a próxima etapa.

Wall Street possui décadas de mecanismos para reduzir a quantidade de capital necessária para liquidar volumes enormes de negociações. Blockchain oferece a possibilidade de reduzir drasticamente o tempo e tornar a entrega do ativo e do pagamento uma única operação atômica.

A infraestrutura mais eficiente pode acabar combinando características dos dois mundos.

O lançamento da Solana mostra que já existe tecnologia para fazer ativo e dinheiro trocarem de mãos praticamente juntos.

O desafio seguinte é econômico.

Não basta perguntar quanto tempo uma negociação demora para liquidar, é preciso perguntar quanto dinheiro precisa ficar disponível para que ela liquide tão rápido.

A Solana está tentando reduzir o primeiro número para segundos., Wall Street passou décadas tentando reduzir o segundo.

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Rodrigo Reis
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